Opinião
É mítica a tolerância dos portugueses. Diz-se que a tivemos na Expansão Ultramarina, que fomos mais abertos à diferença do que outros povos colonizadores, que convivemos mais amistosamente com o Outro, que promovemos a miscigenação. Nos dias que correm, faz-se perdurar esta nossa fama de tolerantes, com os argumentos de que acolhemos bem os imigrantes e recebemos afavelmente os turistas – quem já não assistiu ao esforço hercúleo de algum nosso compatriota para se fazer entender na língua do ilustre forasteiro, quando, por contraste, esse mesmo forasteiro não manifesta a mínima preocupação em balbuciar sequer simples vocábulos na língua do país que visita? É evidente que esta caracterização dos portugueses como tolerantes “esquece” voluntariamente factos como a escravatura, a Inquisição, a actuação brutal da polícia política no Salazarismo e, no presente, fenómenos de discriminação contra negros, ciganos, cidadãos de Leste, homossexuais, etc. Vem tudo isto a propósito da manifestação organizada pela “Plataforma Cidadania e Casamento”, realizada no passado Sábado. Um claro exemplo de intolerância a toda a prova. Fez-me arrepios ver na televisão aquela enxurrada de gente gritando “não ao 3º sexo” e pérolas do género. Alegam defender os valores da família, esquecendo que hoje as famílias não são o que eram: há mães solteiras, pais divorciados, casais voluntariamente sem filhos, casais com duas pessoas do mesmo sexo e por aí fora. E deixam de ser famílias por isso? O fundamental da família é o amor incondicional que nela se gera e esse existe independentemente da sua composição. A dita Plataforma afirma, na sua página online, “lutar pela liberdade e pela afirmação da beleza dos valores que defende” e buscar “a sua felicidade e a dos outros”. Estranha concepção esta de liberdade, em que a determinados indivíduos não se quer permitir o direito de casar! Irónica esta “beleza de valores”! Bizarra forma esta de procura da felicidade dos outros, quando esses “outros” excluem uma parte considerável da sociedade, neste caso os homossexuais! Ainda há tempos a revista Única do jornal Expresso trazia testemunhos de jovens assumidamente homossexuais que mostram bem a infelicidade e a amargura das suas vidas, marcadas pela rejeição e marginalização ou, talvez pior ainda, por um permanente fingimento daquilo que não são e um medo constante de serem descobertos na sua verdadeira identidade. É felicidade isto? Duvido muito.
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