Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Perdidos nas escutas

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-02-22

Adapto este título do filme Lostin Translation (Perdidos na Tradução) de Sophia Coppola. É precisamente assim que nos sentimos na polémica instalada na sociedade portuguesa sobre o tema da liberdade de imprensa (ou a ausência dela): perdidos. Tem sido tão grande a catadupa de episódios relacionados com o tema que até mesmo o espectador mais atento se perde nas teias enredadas de factos, opiniões e juízos de valor que por aí têm proliferado. Senão vejamos: as supostas escutas à Presidência da República; a publicação pelo Diário de Notícias de e-mails pessoais de jornalistas do público sobre o assunto; o fim do Jornal Nacional de sexta-feira da TVI, dirigido por Manuela Moura Guedes; a saída de José Eduardo Moniz da TVI; o hipotético interesse da PT em comprar parte da Media Capital, sendo a PT depois substituída pela Ongoing neste intuito; as escutas do caso “Face Oculta” publicadas pelo jornal Sol; a não publicação da crónica “O Fim da Linha” do jornalista Mário Crespo no Jornal de Notícias; etc, etc, etc... Esta lista não é exaustiva. Muito mais houve para além destes episódios aqui inventariados. Tudo isto se tornou numa autêntica “novela da vida real”, da qual esperamos pacientemente o desenlace. Este parece, porém, muito longínquo. Desta feita tivemos novos episódios nesta semana que passou. A pedido do PSD, começaram a ser ouvidas na Assembleia da República várias individualidades ligadas à Comunicação Social, em audições na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura. Sempre que pude, plantei-me em frente à televisão e fui assistindo ao desenrolar dos acontecimentos. Ouvi José Manuel Fernandes (ex-director Público), Mário Crespo, António Costa (director do Diário Económico) e Arons de Carvalho. Do que ouvi, ficou-me a curiosidade em relação às conclusões que dali irão sair: vi poucos factos concretos; em contrapartida, proliferaram opiniões, interpretações subjectivas, afirmações de regras de conduta individuais, crenças pessoais, declarações peremptórias afirmando ou negando factos... Até Mário Crespo, jornalista conceituado que aqui referi na passada semana, transformou a sua audição num verdadeiro happening, durante o qual desempenhou um papel algo jocoso que passou por distribuir fotocópias do seu artigo censurado (como se alguém o desconhecesse nesta altura dos acontecimentos!), mostrar o seu livro A última crónica, num quase golpe publicitário (irá com certeza ser um sucesso de vendas), e desembrulhar uma t-shirt que lhe terão oferecido, alusiva ao facto de ainda não ter sido processado por Sócrates. Este tom leve de quase galhofa definitivamente não contribuiu para conferir ao assunto a seriedade que ele merece. Perdidos estávamos e perdidos ficámos, aguardando as cenas dos próximos capítulos. Para quando o fim da novela?

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