Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Vampiros

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-02-15

Nos últimos tempos tenho-me surpreendido com a crescente apetência do público pela estética vampiresca. Basta atentarmos nos escaparates das livrarias, com os tops cheios de obras como Crepúsculo, Amanhecer eLua Nova. Até o mundo das telenovelas, em regra mais atreito a assuntos mais ligados ao mundo real, está agora repleto de criaturas com dentes pontiagudos e apetite sanguinário. Tratar-se-á de uma moda passageira, como todas as modas, que em breve será esquecida, ou será um fenómeno mais profundo, um sinal dos tempos? É verdade que sempre houve um certo fascínio pelo mundo fantástico dos vampiros, fascínio este que se tem traduzido ao longo dos tempos na arte, sobretudo na literatura (Drácula de Bram Stoker) e no cinema (Nosferatu, o Drácula de Coppola, Entrevista com o vampiro, entre muitos outros).O curioso é que esta temática deixou de ser um pontual fenómeno de culto, restrito a um público relativamente reduzido, e passou a tema preferencial da cultura de massas. Daí que hoje encontremos vampiros nos bestsellers e nos blockbusters. Stephenie Meyer, autora da saga Crepúsculo, e L. J. Smith (Diários do vampiro) são dois exemplos de vendas por todo o mundo. A televisão não foge à regra: às novelas com vampiros juntam-se séries como Sangue fresco, da HBO, que comprovam que esta é realmente uma moda que chega a todo o lado. Até às consolas de jogos, já que também não falta oferta neste segmento de mercado. A figura normalizada de alguns destes vampiros contribuiu para a vulgarização de algo que normalmente seria classificado como imagem de extrema violência. Já não vivem em castelos, são jovens atraentes, com hábitos próprios da sua idade. De facto, entre pescoços mordidos, cabeças decepadas, jorros de sangue, já nada parece meter medo a ninguém, sobretudo aos mais novos. Há uma busca constante de emoções fortes que reflecte uma necessidade de evasão da rotina diária. Esta procura de picos de adrenalina torna o entretenimento um verdadeiro pesadelo, povoado de criaturas sanguinárias. É verdadeiramente surpreendente a enorme quantidade de pessoas – sobretudo jovens – que hoje procuram este tipo de emoções na estética gore. Mais do que discutir gostos, interessa-me reflectir sobre esta moda tão popular. Esta passagem de fenómeno de culto a produto de cultura de massas tem com certeza interpretações mais ricas do que a economicista. Vende muito, é verdade. Mas é muito mais do que isso. Inclino-me a pensar que este levar as emoções ao extremo pode ser uma catarse para o tédio que muitas vezes se instala no nosso dia-a-dia. Já dizia Stig Dagerman no título do seu livro: A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer.

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