Opinião
Silvio Berlusconi, actual primeiro-ministro italiano, é talvez o maior manipulador dos media à face da terra, actuando em duas frentes: o controlo económico de jornais, editoras e canais de televisão e uma estratégia exímia de comunicação nos órgãos de comunicação social, através dos quais vai construindo uma imagem de si próprio que fomenta a sua grande popularidade, ou seja, que vende. Em termos de carácter, Berlusconi não é propriamente um modelo a seguir. A sua vida atribulada inclui corrupção, atentados à liberdade de expressão, infidelidades e múltiplas aventuras sexuais que demonstram o modo como vê as mulheres: como troféus que se exibem ou meros elementos que preenchem quotas nos elencos governamentais. E se atentarmos no facto de que as mulheres escolhidas por Berlusconi para o seu governo, para além de serem todas bonitas, elegantes, autênticas top models, não serem sequer as pessoas mais competentes para os lugares, está tudo dito quanto ao carácter decorativo destas. Estas peripécias da biografia de Il Cavaliere, como é conhecido, já lhe valeram duras críticas. E com razão, diga-se. Uma das mais violentas foi de José Saramago, que lhe chamou “delinquente”, o que lhe valeu a recusa da editora italiana Einaudi de publicar O Caderno, obra que reúne alguns textos que Saramago foi escrevendo no seu blogue. Claro que aqui está novamente a mãozinha de Berlusconi, proprietário da Einaudi, que censura tudo o que possa denegrir a sua imagem. Ora, há semanas este magnata foi protagonista de um episódio que imediatamente usou como mais um instrumento de marketing político. Um indivíduo atirou-lhe um objecto de aço – que depois veio a saber-se ser uma réplica da catedral de Milão – com tal violência que lhe partiu o nariz, uns dentes, pondo-o a sangrar copiosamente. Por mais que deteste este modelo de político, critico veementemente os que se regozijaram com tal acto. Não é com sangue que se castigam os costumes. Mas há um aspecto que não posso deixar de notar: em vez de se resguardar, Berlusconi aproveitou a sua própria desgraça, mostrou-se às câmaras de televisão, exibiu sem pudor o seu próprio sangue, pondo-se ao serviço do sensacionalismo. E os canais de televisão não resistiram a mostrar em câmara lenta a minúscula catedral voando em direcção ao nariz ministerial. Ele bem sabia que expondo-se se vitimizava melhor e capitalizava pontos a seu favor. Os factos falam por si: numa sondagem feita há dias, verificou-se uma subida em flecha da sua popularidade. Um verdadeiro mestre na arte da comunicação de massas, infelizmente com baixíssimos padrões morais.
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