Opinião
É no mínimo intrigante a apetência que se tem revelado nos últimos tempos para construir artefactos particularmente altos. Assim de repente, vêm-me à cabeça dois exemplos: a insistência de Portugal em ter a árvore de Natal artificial mais alta da Europa e a nova torre recentemente inaugurada no Dubai e celebrada como a mais alta do mundo. Com o patrocínio de empresas variadas, a capital portuguesa tem sido palco, desde há alguns anos, de sucessivas árvores de Natal, verdadeiros monumentos ao aço que irradiam luzes por todos os lados. Tem o seu quê de patético isto de querer à viva força ser o maior em alguma coisa, nem que seja numa decoração natalícia. A par disto, só aquelas tentativas de fazer o maior arroz-doce ou o maior bolo-rei do mundo. Estes feitos gigantescos preenchem as pessoas; dão-lhes a sensação de que estão a participar em algo que fica para a História, em algo de grandioso, mesmo que trivial. Ainda que possa parecer sem interesse, conseguir algo superior ao que outros já fizeram dá sempre uma sensação de vitória que permite fugir à banalidade do dia-a-dia. Assim funcionam os recordes e assim se explicam as frequentes tentativas para os bater. São testemunhos do ser humano tentando superar a sua própria limitação e a sua irremediável finitude. Mas voltemos às alturas. A torre do Dubai – planificada antes da crise mundial, que ataca agora também este emirato árabe – é mais um exemplo do desejo humano de chegar ao céu. Por isso me fez lembrar a mítica torre de Babel (fonte de todos os desentendimentos linguísticos) e as catedrais góticas, marcadas por estruturas que querem chegar ao céu, como que arranhá-lo, num desejo simultaneamente sagrado e herético, procurando chegar à entidade divina e ao mesmo tempo equiparar-se a ela, pôr-se a seu lado, desafiá-la (daí o castigo causado por Babel). Foi isto que me fez olhar de novo para estes feitos que não me diziam nada e perceber que eles significam muito para quem neles está envolvido. São simplesmente formas diferentes de a Humanidade se ir superando e de ir estendendo os seus limites. Muito melhor, aliás, do que ficar no sofá criticando o que os outros se esforçam por fazer.
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