Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Ano Novo, Vida Nova (ou talvez não)

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-01-11



Não sei se é da idade, mas mudar de ano já não me diz grande coisa. Na minha infância ainda havia o frisson de cada novo ano, que surgia como um mundo novo por descobrir e em que tudo podia acontecer. Agora é sempre mais do mesmo. A crise económica continua, a vida política portuguesa mantém-se periclitante, o trabalho continua exactamente a partir do ponto em que o deixámos no ano passado – vulgo dia 31 de Dezembro de 2009. A verdade é que nunca liguei grande coisa à festa de fim de ano. Sempre me fez uma certa confusão que se mantenha a vida em suspenso por um dia e toda a gente fique eufórica, cantando e dançando em ritmos frenéticos até ao raiar do dia, como se não houvesse amanhã. Bem sei que o ser humano tem necessidade destes momentos de amnésia total, de completo corte com a realidade num estonteamento a maior parte das vezes bastante etilizado. Beber para esquecer, diz-se. Pois eu nunca partilhei destas exaltações, que sempre me pareceram algo forçadas. A festa, quando tem de acontecer, acontece. Quando vem com data marcada e obrigatória soa-me sempre a rotina. E a rotina cansa. Também nunca fiz resoluções para o novo ano. Prefiro fazê-las em qualquer altura do ano, com um prazo de validade mais longo ou mais curto, conforme o caso. As resoluções devem ser para a vida. Não para uma data. As do Ano Novo rapidamente caem no esquecimento, segundo me parece. Depois há os balanços do ano que passou. Que este ano vêm acrescentados com balanços da década: figuras de relevo, acontecimentos marcantes, os melhores livros, discos, filmes, peças de teatro, exposições... Estas informações consulto-as sempre com curiosidade e têm geralmente vários efeitos: fazem-nos aperceber da história que se foi fazendo; lembram-nos eventos que perdemos irremediavelmente, só nos restando um lamento, e outros a que felizmente assistimos e que nos enriqueceram cultural e individualmente; finalmente, last but not least, apontam-nos sugestões de objectos estéticos que eventualmente nos tinham passado despercebidos ou que deixámos esquecidos na prateleira. Apesar de todo este discurso, fico feliz por ter chegado ao novo ano. E desejo naturalmente a todos os leitores um óptimo ano de 2010!

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