Açoriano Oriental

Opinião

Paulo Mendes As brasileiras…

Paulo Mendes
Sociólogo

2009-12-24

As sociedades têm formas semelhantes para criar e desenvolverem preconceitos em torno de diferentes minorias que sustentam, posteriormente, discriminações de diferentes graus e impactos. O importante não é saber se esta ou aquela sociedade discrimina mas sim quem é que é discriminado. Vou partilhar com o leitor dois episódios que aconteceram aqui nos Açores. No outro dia a Márcia (nome fictício) foi às compras com o marido. Depois das compras dirigiram à praça de táxi para regressarem à casa. No percurso para a praça de táxi, o marido teve de regressar ao espaço comercial. Nesse intervalo de tempo, a Márcia dirigiu-se sozinha para o táxi. O taxista, simpático, ajudou-a a arrumar as compras e quando ele se apercebeu que a Márcia é brasileira fez-lhe a seguinte pergunta: quanto é que a menina leva para estar comigo? Isso aconteceu a escassos segundos antes do marido da Márcia regressar. Maria, imigrante brasileira radicada há já alguns anos em São Miguel, está desempregada. Casada, também, com um jovem açoriano, começou nos últimos tempos a enviar currículo para diversas instituições. Aproveitando uma ida às compras, Maria foi perguntar se já havia uma vaga para o trabalho que entretanto concorrera. A senhora que a atendeu disse-lhe que ainda não tinha nenhuma resposta. Uma outra funcionária que estava a ouvir a conversa, percebendo que a Maria é brasileira, disse-lhe literalmente isso: - A menina é brasileira. Não sei porque razão quer vir trabalhar aqui. Se fosse a si, iria ganhar uns trocos como puta. Ganharia muito mais. A Maria nem queria acreditar no que acabara de ouvir e o episódio ainda está para ser revolvido pelo grupo que gere o espaço comercial em causa. Vivem em Portugal mais de 65 mil brasileiros e metade são mulheres. Nos Açores, a comunidade é composta por perto de mil brasileiros. A larga maioria das imigrantes brasileiras trabalha no sector do comércio, serviços e limpeza. No entanto, as pessoas insistem na ideia de que todas as brasileiras são prostitutas ou que trabalham na diversão nocturna. As brasileiras que vivem na Região são confrontadas diariamente com comportamentos brutalmente discriminatórios. Há mulheres brasileiras na prostituição como temos portuguesas e açorianas a fazerem a mesma coisa. Ninguém tem nada a ver com a vida alheia. Todavia, é muito preocupante quando percebemos que os estereótipos construídos à volta da mulher brasileira têm dificultado a necessária e desejável integração dessa comunidade nas nossas ilhas que tem dado um contributo válido no desenvolvimento dos Açores. 

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