Opinião
Fiquei estupefacta com uma notícia que me chamou particular atenção esta semana: a de que os trabalhadores dos hipermercados anunciaram uma greve para dia 24 de Dezembro, por lhes estarem a ser impostas, na negociação do novo contrato colectivo, 60 horas semanais de trabalho. Esta proposta, apresentada pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), vem acompanhada de outros “mimos”, como o de dar ao patronato a possibilidade de alargar até às quatro horas diárias o período normal de trabalho, avisando de véspera o funcionário. Fiz imediatamente as contas e cheguei a esta brilhante conclusão: 60 horas por semana dá uma média de 10 horas de trabalho por dia, se excluirmos um dia de folga! Se um dia tem 24 horas, restarão a estas pessoas 14 horas de cada dia para dormir, tomar refeições, tratar dos filhos, educá-los, deslocarem-se de e para o trabalho e escolas, fazer compras, executar tarefas domésticas “leves” como limpar e arrumar a casa, tratar da roupa, etc., etc. Já para não falar no tempo de lazer, que esse parece-me ter já deixado de existir para muita gente há muito tempo. Nunca compreendi aquelas pessoas que reclamam porque as greves afectam os serviços, que paralisam, atrasam, adiam tarefas. A APED acusa estes funcionários de “atitude oportunista e demagógica” (António Rousseau dixit), por estar a pôr em causa o bom funcionamento das grandes superfícies numa época de grande facturação. Ora uma greve visa precisamente alterar a ordem natural das coisas. Caso contrário, não surtiria efeito nenhum. De que serviria esta greve agora anunciada se fosse marcada para dia 26 de Dezembro, quando as compras já estão todas feitas, as prendas estão trocadas e os bolsos vazios até ao fim de Janeiro? Quem se importaria com isso? Quem ouviria a voz destes trabalhadores, voz que muito dificilmente chega às agendas mediáticas se não for por vias extremas como esta? E, já agora, alguém acredita que este dia sem vendas fará assim tanta diferença aos grandes magnatas do consumo? Falo contra o meu próprio interesse, já que muito tenho ainda que calcorrear os hipermercados até ao dia de Natal. Ainda que eu possa ficar com alguma prenda por comprar ou alguma iguaria por comer, apoio incondicionalmente esta greve.
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