Opinião
George Steiner é daquelas inteligências que nos fazem sentir pequeninos quando o lemos ou quando o ouvimos. Ele é o verdadeiro homem de cultura, com uma invulgar abrangência de conhecimentos em diversas áreas e com uma extraordinária capacidade de estabelecer relações entre realidades que à primeira vista nos pareceriam distantes, como sejam a cultura, as duas guerras mundiais, a literatura comparada, os estudos de tradução, a barbárie que atravessa o mundo moderno, os clássicos gregos, entre tantas outras que tem vindo a explorar no decurso da sua já longa carreira. Vem isto a propósito da presença de George Steiner há poucos dias em Portugal, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para receber as insígnias do grau de Doutor Honoris Causa. Steiner, já com 80 anos, é um dos grandes pensadores da contemporaneidade cujo discurso nos aguça o espírito crítico, nos faz indagar sobre o mundo em que vivemos, para além de nos enriquecer profundamente com a densidade de conhecimentos que transmite. Um bom exemplo disto é No castelo do Barba Azul. Algumas notas para a redefinição de cultura, cujo título é inspirado na ópera homónima de Béla Bartók. Nesta obra Steiner faz um diagnóstico dos últimos dois séculos, demonstrando o percurso da humanidade que a levou às duas Guerras Mundiais e àquilo a que chama a “pós-cultura”, ou seja, uma época caracterizada pelo afastamento do eurocentrismo (e consequente valorização de outros paradigmas culturais), mas também pelo desencanto, pelo regresso à barbárie, pela nossa habituação ao horror e ao inumano. Nesta encruzilhada nos encontramos. Resta-nos continuar a “abrir portas”, como a Judite no castelo do Barba Azul, continuar a questionar o mundo, mesmo correndo o risco de nos depararmos com algo que não nos agrada, como diz o autor: “Deixar uma porta fechada seria não só uma cobardia como uma traição – radical, automutiladora – da atitude de indagação, persistente na busca, incolmatável da nossa espécie. Somos caçadores que perseguem a realidade, leve esta onde levar. As ameaças, os perigos afrontados são da mais flagrante evidência”. Depois de ler Steiner não voltamos a ser os mesmos. Se não o descobriu ainda, apresse-se. Nem sabe o que está a perder.
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