Açoriano Oriental
Pedro Nunes Lagarto Crises silenciosas

Pedro Nunes Lagarto

2010-08-16

Esta semana vou contar-lhes três estórias que contribuem para uma estória maior. A primeira aconteceu há algum tempo e resulta de um contacto telefónico feito pelo “Açoriano Oriental”. Na altura pedimos a um antigo líder de um partido que comentasse determinado assunto e a primeira reacção foi de espanto:“Mas, vocês (jornal) trabalham aos fins-de-semana?”. A segunda sucedeu na última terça-feira quando me dirigi a um novo espaço de restauração para almoçar. Depois de perceber que o “buffet” não tinha pratos do meu agrado, de forma delicada, e até com algum sentido de humor, informei a funcionária que afinal iria faltar à “aula”, mas que prometia regressar. De olhos esbugalhados, e num tom de voz pouco apropriado, respondeu-me: “Não há problema. A casa está sempre cheia!”. A terceira estória foi-me contada na última quinta-feira por um responsável de uma das três câmaras do comércio dos Açores. Aquela entidade desafiou os empresários a abrirem os seus espaços por ocasião das maiores festas concelhias da ilha que, por sinal, constituem um dos maiores cartazes turísticos da Região. O problema é que findo os festejos os responsáveis da Câmara do Comércio tiveram que agradecer apenas a cinco empresários pois os demais preferiram participar nas festas (mais a sua família) do que fazer negócio. O que estas três estórias relatam é uma estória bem maior que se prende com a falta de agressividade de algum do nosso tecido empresarial. É que, por vezes, para se ganhar dinheiro, é preciso trabalhar quando os outros não trabalham, mesmo que tal implique sacrificar fins-de-semana, feriados , festividades e até horários mais alargados. Para ganhar dinheiro é preciso oferecer produtos e serviços onde os outros não estão, mesmo que tal implique abrir negócio fora das já congestionadas Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta. É que para ganhar dinheiro não basta ter bons gestores e administradores se depois na linha da frente do contacto com o cliente estão pessoas incompetentes e antipáticas. Ora, são precisamente alguns desses empresários que acusam falta de sensibilidade e agressividade comercial que depois aproveitam as crises cíclicas para camuflar as suas próprias falhas e logo apelar à ajuda do Governo como se os dinheiros públicos tivessem que estar à disposição. O problema é que ao longo dos anos são eles próprios responsáveis, cada qual no seu campo de actividade, por crises quase imperceptíveis, praticamente silenciosas, que vão minando a sua oferta em particular e a economia açoriana em geral. Dito de outro modo, e a título de exemplo, de pouco vão servir transportes aéreos com custos mais acessíveis e maior número de paquetes se, depois, o comércio está fechado, a restauração a meio gás e o atendimento é deficiente (já para não falar em outras entidades que teimam em ter as igrejas e os museus encerrados).
 

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