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Outros Regressos, Agora

Vamberto Freitas /

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Cada crónica de jornal é, no essencial, um fragmento da biografia do seu autor. Joel Neto, Banda Sonora

Banda Sonora para Um Regresso a Casa, de Joel Neto, é a nova colectânea de crónicas que o autor vem publicando desde há anos na coluna Muito Bons Somos Nós do Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Quando as lemos separadamente em cada texto lemo-las na fragmentação natural de um jornal diário. Só o seu autor saberá nesses momentos que a sua temática é só uma, quando não por qualquer identificável fio de conduta dos temas abordados serão inevitavelmente unificadas pela voz singular do escritor, pela sua atitude geral ante o mundo que habita - e o habita a ele. Um livro de crónicas será um outro jogo de espelhos, mas quem se contempla e é contemplado de volta será a mesma persona pública inventada para tal fim comunicativo ou dialogante. Palavra a palavra, vai construindo uma narrativa desses recantos das suas presentes vivências e geografias afectivas, e particularmente uma narrativa de si próprio, saltando de assunto em assunto, recriando personagens diversos, revendo eventos e acontecimentos - mas é de si que fala, redizendo-se em cada texto disperso que depois formará um todo com princípio, meio e fim. Cada livro, por sua vez, muito provavelmente será a continuidade dos anteriores. Ocupando e desenvolvendo um espaço entre a realidade e a ficção, a crónica clássica terá sempre o “eu” no seu centro, será precisamente a sua anunciada e esperada subjectividade o que transfigura um mero relato do dia em arte perdurável, referencial para quantos nela se revêem espelhados. Acrescente-se aqui enfaticamente que no género Joel Neto -também ficcionista de provas dadas no romance O Terceiro Servo (2000) e nos contos de O Citroen Que Escrevia Novelas Mexicanas (2002) - é o mestre por enquanto incontestado da sua geração, e não falo só de açorianos, evidentemente. Não sei se outros têm notado que na nossa escrita destes últimos anos (tanto entre as gerações mais batidas como entre as mais novas) há uma palavra que nos aparece com frequência em títulos de livros, poemas e outra escrita: regresso. É claro que define de imediato alguma da temática mais marcante entre os escritores açorianos e da Diáspora dos nossos dias. Estamos regressando a quê e aonde? Que nos leva a este subentendido ou escondido descontentamento com o espaço ou espaços em que nos movimentamos e nos quais se desenrola a nossa vida e sorte? Com efeito, a pós-modernidade caracteriza-se essencialmente pela generalizada fragmentação societal, e pela “ausência” das instituições que nos serviam de referências orientadoras e que pensávamos inabaláveis - igreja, casamento, família, comunidade, carreira, política. O centro, como dizem os norte-americanos, “não se segurou”; pior ainda, não há mais “centro”, não existem mais certezas sobre nada e ninguém. O Vazio, o Nada, prevalece neste limbo histórico em que vivemos, sabendo o que perdemos mas não o que nos espera. Eis a literatura séria respondendo à sua própria época, como sempre aconteceu. Regressar, pois, ao que pelo menos ainda recordamos, ou simplesmente regressar a nós próprios, à nossa integridade como indivíduos, parte que somos de todo um corpo social. Creio que a presente narrativa de Joel Neto se enquadra de certo modo no desejo por um mundo ou mundos perdidos. Não sei se ele é ou foi seu leitor, mas há na sua prosa qualquer coisa que lembra Raymond Carver, que sabemos ter influenciado outros desta mesma geração portuguesa: a brevidade da frase claríssima na sua simplicidade vocabular, a estranheza de ser e estar no seu próprio meio e tempo. Há em Joel Neto uma qualidade extra-literária admirável nos tempos de pretensiosidades cosmopolitas em que vivemos: o assumir sem quaisquer complexos as suas origens atlânticas, reduzindo ainda os seus afectos mais profundos ao seu lugar de nascença: uma freguesia limítrofe de Angra do Heroísmo, reduto citadino da sua educação até à ida para a faculdade em Lisboa, onde continua a residir e a trabalhar. São várias as crónicas do seu constante regresso a casa, na saudade do “exilado” e na convivência agora esporádica com muitos dos que formavam o seu mundo de jovem. Quando um escritor se alheia da sua origem, creio, a sua escrita perde a força da emoção e da autenticidade. Alguns dos escritores açorianos desta geração (quase toda) residente na capital do nosso país fazem-me lembrar certos intelectuais e escritores norte-americanos a partir dos anos 70, filhos de imigrantes de toda a parte, inteiramente integrados nas culturas ditas dominantes mas trazendo novas perspectivas culturais e literárias só possíveis pela sua formação noutras tradições, a sua visão ora recta ora distorcida nos inevitáveis labirintos da sua época. A narrativa de Joel Neto evidencia todo este aconchego numa sociedade já pluralista e mais ou menos aberta em termos humanos e culturais. Banda Sonora está dividido em quatro secções denominadas, pois claro, de “discos”. A sua linguagem está consistentemente marcada pela ironia, pelo humor e por vezes pela cómica auto-depreciação, tornando-se num suave mas alegre trilho musical que acompanha as viagens do seu autor por geografias domésticas, desde o incomparável e belo Bairro Alto que actualmente lhe serve de poiso à casa paternal na Terra Chã, passando pela Rua da Sé e pelo seu sofrido campo de jogos ali mesmo ao lado. São os novos costumes da sua própria geração que ele nos relata um pouco por toda a parte na cidade branca coroada de céu azul e à beira do rio romântico com mais história (verdadeiramente global) trágica e gloriosa do que quase todos os outros países europeus juntos, pátrias, essas, dos mais safados e violentos velhos do Restelo ou, passe a maldade verbal aqui, do Reno. Joel Neto poupa-nos o que desde há muito virou moda entre outros neste género de escrita: falar do mundo inteiro com a malvada Nova Iorque ao centro, como se uma mera passagem de dias por uma grande cidade ou por países tidos como “cosmopolitas” carimbasse para sempre com sabedoria e mania os que aparentemente nunca souberam criar mundos credíveis e vida consequente portas adentro. Banda Sonora não canta glórias ou conquistas de um escritor relativamente novo e andarilho: é sobre a sua sobrevivência mínima com sentido e algum significado, principalmente em Lisboa ou nos Açores. Uma das grandes vantagens e virtudes de não se viver no lugar onde nascemos é a capacidade de distanciamento entre tudo e todos, mesmo na terra que foi o nosso berço natal e onde nos inventamos ou reinventamos como seres humanos. “Criado no campo, - escreve em ‘Raparigas de Lisboa’ - com uma cidade de pequeno porte como referência cosmopolita, cheguei a Lisboa para estudar e logo me instalei nos subúrbios. Não gostei nem deixei de gostar: Lisboa era já o meu desígnio diário, o sítio a que chegava e de que fugia sem nunca conseguir escapar dele (… )”. O êxtase de um verdadeiro cosmopolita, nascido ou não numa ilha açoriana, fica para outras ocasiões. Um lugar é um mero lugar, e só o vivemos interiormente conforme a nossa inteligência e sensibilidade. • Joel Neto, Banda Sonora para Um Regresso a Casa, Lisboa, Porto Editora, 2011.