“Eutanásia é um assunto de alta intensidade mas baixa frequência”
Regional | 2009-02-15 22:32
Qual a visão da Igreja Católica sobre o prolongamento artificial da vida e sobre a eutanásia?
Nos casos de doenças terminais, a Igreja defende uma morte digna e com o menor sofrimento possível, também chamada ortotanásia. Sabemos que a morte faz parte da vida e que, sem ela, o ser humano não fica completo. A Igreja é a favor da vida humana, na sua totalidade, como valor fundamental e inalienável, isto é: desde a concepção até ao seu ‘terminus natural’. Penso que toda esta questão à volta da eutanásia é um assunto de alta intensidade, mas baixa frequência.
Sempre que surge na opinião pública um caso de eutanásia, chega a dividir-se interiormente entre o seu dever de sacerdote e a sua opinião de cidadão?
Não.
Que conforto espiritual é possível dar a um doente terminal? Quer revelar algum caso especial em que esse conforto tenha surtido efeito?
É indispensável perceber que os cuidados espirituais e ou religiosos fazem parte integrante de um trabalho em equipa interdisciplinar. Em todo o processo, é fundamental o papel da medicina paliativa no controlo dos sintomas para que a pessoa se sinta minimamente confortável e sem dores. Os cuidados espirituais não poderão ser "tipo bombeiro", mas de "companheiro", que marca uma presença afectiva e efectiva, acompanhando o desencadear do processo na pessoa doente que o deseja e solicite directamente, ou por intermédio dos seus familiares, que deverão assumir integralmente o papel de participantes nessa equipa de profissionais de saúde.
A comunicação deverá ser adequada e responsável, devolvendo, tanto quanto possível, ao enfermo a sua autonomia para tomar decisões, para dar a conhecer os seus valores, as suas verdadeiras preocupações, os seus assuntos para resolver. Para as despedidas, para desfazer as mentiras, para resolver as questões difíceis, estabelecer confiança, segurança, compreensão e para favorecer o acompanhamento humano e espiritual. Nos cuidados espirituais a pessoa doente é sempre quem sugere o que necessita. Por vezes, é preciso alguém que a ajude a descodificar ou purificar a linguagem religiosa que deseja expressar através das suas inquietações, ansiedades, sentimentos de tristeza, mágoas, angústias, feridas no interior do coração, perdas, remorsos, luzes e sombras, gritos de dor e abismos de medos... O acompanhamento espiritual também poderá passará por ajudar a pessoa a procurar o sentido da vida - da sua vida - naquele preciso momento de desalento, de perda da saúde, de desespero, reconciliando-se consigo e com o seu passado, integrando a sua história, narrando ou relendo a sua vida à luz daquilo que sempre valorizou, ou que o fez sentir-se importante, querido e útil... Podemos ser levados a pensar que tudo isto - e muito mais - acontece com feitos grandiosos ou espectaculares da pessoa, mas não... A maior parte das vezes, a pessoa doente encontra sentido para a sua existência nas coisas mais simples: uma flor, um sorriso desinteressado, a entrega de vida gratuita, a presença amiga, a escuta empática, uma mão estendida, o perdão incondicional, uma viagem que realizou, uma fotografia, a força de um olhar cheio de compaixão, a pessoa que amou... Tudo isso poderá fazer com que ela percorra o caminho a que eu chamaria a "Via Sacra da Fé" que, no fundo, não são mais que as etapas do processo psicológico que a pessoa doente é confrontada e desafiada a fazer: negação, revolta, negociação, depressão e reconciliação. Caminho este que não é linear e que por vezes - muitas - tem retrocessos, ou então poderá acontecer em poucas horas…
Hoje em dia, os cuidados paliativos permitem prolongar muito a vida, por vezes com grande perda de qualidade. Dentro da própria Igreja Católica, há quem critique esse prolongamento - a distanásia - quando associado a muito sofrimento. Qual a sua opinião pessoal?
Cada caso é um caso. Quando uma pessoa é confrontada com uma situação terminal, cada minuto é único e precioso. Ela tem o direito de ser ajudada a viver com dignidade, humana e confortavelmente até ao último momento. Neste campo a medicina paliativa tem muito a contribuir para que assim aconteça.
Quando a Igreja Católica critica o que diz ser uma "cultura de morte" que cresce nas sociedades ocidentais, a que é que se refere especificamente?
Penso que tem a ver com as opções que tentam substituir ou podem mesmo comprometer os valores que fundaram a nossa civilização ocidental, tais como a verdade, o bem, a justiça, a liberdade, o direito, a vida humana, o trabalho ou a família...
Como define a morte? Há boas e más formas de morrer?
A morte é a única certeza na vida. Absolutamente.
Rui Jorge Cabral
0 Comentário(s)
Para fazer comentários no Açoriano Oriental online basta registar-se.
O registo é gratuito.








