Açoriano Oriental
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Directora da Galeria Fonseca Macedo

A Directora da Galeria Fonseca Macedo reponde às questões dos leitores do AO online

Fátima Mota
2010-07-02
Humberto
Considera o público açoriano consciente da importância cultural e social das manifestações artísticas que ocorrem actualmente ou, em contrapartida, acha que ainda se encontra desconexo da realidade artística actual?


A primeira consideração que gostaria de fazer é reconhecer que, ao falarmos em termos gerais, corremos riscos de simplificar as situações e de generalizar aquilo que corresponde somente ao nosso conhecimento restrito.
A minha preocupação tem a ver com o uso da expressão “o público açoriano”: Para mim existem vários públicos que apreciam manisfestações culturais diversas, de acordo com os seus conhecimentos, interesses, numa palavra, formação.
Em relação às iniciativas que a Galeria Fonseca Macedo tem vindo a desenvolver no seu espaço de exposições e também noutros locais, como a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada e também, recentemente, na Universidade dos Açores, é visível que existe um público consciente da importância cultural das nossas exposições e que é diferente de acordo com as características dos artistas, o tipo de obras expostas ou o tema da conferência ou ainda o nome do conferencista.
Por considerarmos que é importante analisar estes dados, temos tido o cuidado de registar, desde o início da actividade da galeria, o número de visitantes diários.
Curioso, mas compreensível, é ver que nas exposições de artistas dos Açores, residentes ou não, o número de visitantes sobe em comparação com o número de visitantes registado em exposições de artistas vindos do continente ou do estrangeiro, apesar de estas exposições serem uma oportunidade para conhecer o que alguns dos mais conceituados artistas  estão a produzir neste momento.
Contrariaram esta observação as exposições dos mais famosos:
Vieira da Silva e Arpad Szenes.
Nestes dois casos, o número pessoas que visitou as exposições disparou e ainda registámos auditórios repletos nas conferências sobre a vida e obra destes artistas, as quais tiveram lugar na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
Um nicho de público que nos interessa muitíssimo é o nicho das escolas e da universidade. Os estudantes visitam normalmente  as exposições acompanhados dos professores, fazendo da visita uma aprendizagem integrada na sua formação. Estas deslocações à Galeria acontecem com muita regularidade e, seguramente, serão um contributo para a formação cultural e social dos jovens. Num futuro, teremos adultos mais interessados e conscientes.
Acredito que a transformação da sociedade se faz pela educação: conhecimento e formação cívica!



Humberto
Que medidas acredita serem fundamentais para tornarem o público açoriano mais interessado e mais capaz de ver, fruir e acima de tudo, criticar com fundamento arte, nomeadamente nos campos das artes plásticas?


Nesta pergunta estão incluídos 3 níveis distintos  de relacionamento com as artes plásticas (ou com qualquer outra forma de criação artística) e enunciados em gradação, do mais elementar ao mais complexo. Deixando de lado a competência de “criticar com fundamento a arte”, que exige uma formação específica no domínio do conhecimento da História da Arte e da Estética, ocupar-me-ei dos dois primeiros níveis, ao alcance de um público mais alargado, mas interessado.

No campo das artes plásticas, as medidas para fomentar o interesse do público, e que têm sido eficazes em muitos locais, são:

. a construção de museus de arte contemporânea;
     . a formação de acervos;
. o desenvolvimento de programas de exposições.
 
Hoje em dia, a construção de museus tem produzido bons resultados, desde que haja uma escolha criteriosa da sua direcção e uma administração com orçamento sustentável e independente do poder politico.
A direcção dos museus mais reconhecidos é um elemento fundamental na definição do acervo, na programação de exposições e no estabelecimento de redes, envolvendo outras instituições museológicas no país e estrangeiro, instituições particulares e apoios mecenáticos.
Na minha perspectiva, a escolha do director ou da directora de um museu de arte contemporânea deverá ser feita a partir de um concurso com a apresentação de currículo (no qual a formação científica seja assegurada) e de um projecto para 4 ou 5 anos. A mobilidade de directores de museus cria a oportunidade de definição de um  “ranking”, que será certamente estimulante para uma carreira e propício a um elevado nível de concretização de projectos.
Também é absolutamente necessário formar um acervo para constituir a base das exposições temporárias. O acervo é o sinal mais evidente da riqueza de um museu e deve ser constantemente valorizado em exposições temáticas no seu espaço e, também, em outros museus. Sabemos que só são valorizadas as obras de qualidade e que interessam aos grandes projectos nacionais ou internacionais. Estas características devem nortear quem tem a responsabilidade de constituir um acervo que venha a acumular um valor acrescido com o passar do tempo.
A programação de exposições deve ser realizada tendo em vista a promoção da criação artística (que pode ser local ou não) e a formação de públicos, sem descurar, no caso dos Açores, a captação do turismo cultural.



Helena
Qual a nacionalidade da maioria dos artistas que expõem na sua galeria?


A maioria esmagadora dos artistas que expõem na Galeria Fonseca Macedo é de nacionalidade portuguesa.
Costumo dizer que “o núcleo duro”, a razão de existir da galeria, são os artistas de origem açoriana. Os outros artistas representados pela galeria ou convidados para apresentarem projectos específicos são absolutamente indispensáveis para definir uma programação ao longo de todo o ano com maior diversidade de disciplinas e de linguagens.



José
A lei do mecenato tem funcionado nos Açores?


Não, não tem funcionado e é uma pena. Poderia ser compensador para os coleccionadores o seu investimento em arte contemporânea.



Francisco
Sente que a crise actual está a afectar o negócio da arte?


Sim, claro que está a afectar a venda de obras de arte! Apesar do mercado de Ponta Delgada ser pequeno, já houve maiores vendas em anos anteriores. No entanto, esta situação não é exclusiva de Ponta Delgada. O mesmo se verificou na feira  Arte Lisboa, 2009 e no ARCO, Madrid, 2010.



Albano
Já vem detrás o rumor de que existe um mau relacionamento entre artistas e galerias na Região. Qual a sua opinião?


Não tenho conhecimento que exista um mau relacionamento entre artistas e galerias, no sentido de conflitos entre a galeria e os seus artistas representados.
O que, por vezes, pode acontecer é o projecto de uma galeria não se adequar ao tipo de obras que alguns artistas desenvolvem. Como se pode imaginar, isto impede um trabalho conjunto. No entanto, esta situação não é, na minha perspectiva, indiciadora de mau relacionamento.
Devo acrescentar que o trabalho de uma galeria com os seus artistas representados é um trabalho intenso e desafiante, que exige um grande compromisso e lealdade de ambas as partes
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