Director do Centro do Clima, Meteorologia e Mudanças Globais da Universidade dos Açores
Director do Centro do Clima, Meteorologia e Mudanças Globais da Universidade dos Açores; Promotor e Coordenador do Projecto CLIMAAT (Clima e Meteorologia dos Arquipélagos Atlânticos)
Eduardo Brito de Azevedo
2010-04-07
Conceição
Os alertas que nos tem chegado de diversas entidades e organismos nacionais e internacionais tem em comum um futuro catastrofista em termos climáticos. Partilha dessa visão ou terá havido algum exagero, por exemplo, em relação ao que se tem dito sobre o aquecimento global?
A alteração climática é uma realidade que não é contestada. Aliás, o clima é inerentemente variável e sempre foi assumindo características diferentes ao longo da história da Terra. Existem ciclos e factores naturais, a diferentes escalas de tempo, que implicam climas diferentes. Por exemplo, os ciclos de Milankovitch, que se completam em milhares de anos, e que têm a ver com a forma da órbita e do posicionamento do eixo da Terra. A actividade solar, as erupções vulcânicas e os ciclos biológicos também alteram o clima terrestre.
O período que vivemos tem sido no sentido de um aquecimento global que se vem verificando desde a última glaciação (aproximadamente há 18 mil anos atrás) e que pode ser comprovada com base nos registos fósseis bem como nos registos instrumentais mais recentes.
A questão prende-se mais com a evolução mais recente do clima, sobretudo no período pós revolução industrial, onde se verifica uma tendência mais acentuada do aquecimento do planeta em fase com o aumento da concentração de alguns gases com efeito de estufa (GEE), designadamente o dióxido de carbono. A polémica à volta desta questão relaciona-se com o grau de responsabilidade do homem para este aquecimento. Incontestável é o facto de a humanidade estar a recorrer às reservas fósseis de carbono que, de outra forma, estariam retidas por muitos milhões de anos. Através da sua queima estão a ser injectadas directamente na atmosfera quantidades de gases com efeito de estufa superiores àquelas que os processos naturais podem retirar. Para além disso, o aumento da população do globo, a poluição atmosférica de origem antropogénica e a desflorestação, contribuem para o aumento do efeito de estufa, bem como para a redução dos “sumidouros” naturais de carbono. Assim sendo, e não vejo como se pode negar a acção do homem neste fenómeno.
Já a forma como o assunto está a ser abordado pode, em alguns casos, assumir um tom demasiado catastrófico. Não por o assunto não merecer um empenho radical e global da humanidade, mas antes porque as mensagens para serem efectivas, para além de chamar a atenção para os problemas, devem ser feitas à medida da nossa capacidade de intervenção. E ainda temos alguma capacidade de intervenção! Designadamente através da alteração do modo de vida, de consumo e de reposição dos valores universais da humanidade. Só que a alteração climática, que pode ser rápida a partir de determinados patamares, não se compadece com o tempo necessário para a mudança de mentalidades. Assim sendo, a nossa maior capacidade de intervenção individual face à urgência de um problema de tal magnitude passa pelo exercício de cidadania, com recurso aos instrumentos colectivos que as democracias nos proporcionam: escolher as administrações (a todos os níveis) que promovam políticas ambientais e sociais mais correctas e mais justas, bem como exigir delas o seu cumprimento.
Luís
A universidade dos Açores não deveria providenciar uma licenciatura virada para as questões ambientais e climáticas em particular?
A Universidade dos Açores promove vários cursos relacionados com temáticas ambientais onde as relações com o ambiente climático são abordadas. Por esta via estabelecem-se as relações entre o clima e as alterações climáticas com os diferentes temas onde estas podem ter maior impacto, quer numa perspectiva da mitigação do problema quer na alternativa de adaptação ao mesmo, designadamente no domínio dos recursos hídricos, da biodiversidade e da gestão do território.
Paulo
Gostaria de saber qual o percurso académico que é necessário seguir para se poder ser climatologista. Há alguma área específica do ensino que um aluno possa escolher?
A Climatologia é uma ciência que tradicionalmente é abordada de uma forma sectorial. Ou seja, é enquadrada num ramo particular do conhecimento. Por exemplo, nos cursos agrícolas temos a agro-climatologia, nos cursos de engenharia do ambiente que tratam dos recursos hídricos e dos fenómenos hidrológicos temos a hidro-climatologia, nos cursos de ambiente e de biologia que tratam da biodiversidade e recursos naturais a eco-climatologia; nos cursos de geologia a paleo-climatologia, nos cursos de engenharia que tratam das relações entre os elementos do clima e o dimensionamento e gestão de infra-estruturas o clima térmico, o clima da agitação marítima, o clima da radiação solar, o clima eólico, etc,. Nos cursos de geografia também, já que tratam do estudo da distribuição dos climas e das suas implicações na distribuição das diferentes paisagens, na ocupação do território e na actividade humana.
Já o ensino da Meteorologia, ramo da ciência muito interligado com a Climatologia, o estudo dos fenómenos climáticos é feito na perspectiva de os compreender e interpretar, de os medir, de os sistematizar e de os simular (previsão do estado do tempo). Para esta formação é necessário uma forte componente em física, em química e, naturalmente, em matemática.
Lino
Que opinião tem sobre as associações ambientalistas, regionais, nacionais e internacionais em termos de defesa e alerta para as boas práticas ambientais e que influenciam directamente o clima da Terra?
As associações ambientalistas, em todas as suas esferas de intervenção, têm tido uma grande importância na formação da consciência ambiental colectiva, e têm cada vez mais capacidade de influenciar as políticas sectoriais. Constituem, por outro lado, o “braço armado permanente” das populações em temas que requerem um controlo da actividade das administrações. Devem, por conseguinte, basear a sua acção num conhecimento aprofundado das matérias que abordam, quer na perspectiva da identificação dos problemas, quer na melhor ciência e metodologias para os resolver. Assim sendo, têm uma grande responsabilidade na forma como transmitem a sua mensagem que deve ser clara, razoável e adequada aos enquadramentos sócio económicos para os quais se destinam. Infelizmente, pese embora a boa vontade que as anima, assiste-se muitas vezes a uma acção pouco esclarecida, baseada em estereótipos importados de enquadramentos distintos, à face de sensibilidades desligadas das realidades onde actuam. Por estas razões são frequentemente desvalorizadas até mesmo pelas próprias populações. É que nesta área de intervenção é necessário ter-se o discernimento e o bom senso suficientes para adequar o discurso às diferentes realidades, à sensibilidade, à cultura e à dimensão humana dos problemas. Devem também ser críticas em relação ao próprio comportamento das comunidades de que emanam, e não remeter apenas, tal como muitas vezes acontece, a solução dos problemas para o foro da administração do estado. Trata-se da velha questão (adaptada) de não só perguntar “o que é que o estado pode fazer por mim”, mas também, “o que é que eu posso fazer pelo estado”. Senão, correm o risco de apenas serem vistas pela sua faceta mais populista, a da reivindicação.
Nuno
Boa tarde, gostava de lhe perguntar se acha que os Açores têm todo material possível à disposição, para detectar uma eventual catástrofe ou seriam necessários mais meios? Como sabemos é impossível prever uma catástrofe, mas no caso da Madeira viu-se que seria possível antecipar em cerca de 48 horas o temporal e assim evitar algumas mortes! Que meios temos nós e se são regularmente testados, para que em caso de verdadeira catástrofe estejam em pleno funcionamento.
As catástrofes resultam normalmente de uma conjugação de factores que evoluem em escalas de tempo distintas, em enquadramentos sócio-económos diferentes, e devidas a fenómenos sobre os quais o conhecimento está em constante evolução. O caso da Madeira é exemplo disso, onde às opções de ocupação do território (que evoluíram ao longo de centenas de anos), se sobrepôs um fenómeno que só muito recentemente é susceptível de ser previsto (com limitações!) ou acompanhado (também com limitações!). Nestas circunstâncias nem sempre é possível garantir que se tomam (ou tomaram!) sempre as melhores opções para as prevenir ou mitigar. Para além disso, como o período de recorrência de determinados fenómenos é muitas vezes longo, a memória colectiva, sendo curta, tem tendência em desvalorizar os riscos associados às opções que vão sendo adoptadas. Cá está uma área em que a sociedade tem de depositar maior confiança nas suas instituições, exigindo delas (e aceitando!) o papel de reguladoras das actividades que, independentemente da escala de tempo, possam melhor garantir, à luz da melhor ciência da altura (muitas vezes do comum bom senso!), a segurança das populações e dos seus bens. Mesmo que não seja para o curto período de vida de cada um de nós.
Para além desta predisposição colectiva para uma cultura cívica de segurança, há que ter a consciência de que a capacidade de previsão da maioria dos fenómenos susceptíveis de se transformar em catástrofes, climatéricas ou outras, é ainda muito limitada. A natureza de determinados fenómenos naturais assim o determina. Temos de saber viver com esta realidade. Mesmo reconhecendo que o conhecimento cientifico e a tecnologia têm contribuído muito para mitigar estas limitações, há que ter a consciência que, atendendo à complexidade dos fenómenos, à dimensão territorial e aos recursos financeiros (que são sempre limitados), nunca se será possível implementar dispositivos de monitorização que garantam 100% de segurança às populações, ou mesmo o recurso à tecnologia mais actual que possa existir no mercado.
Voltando ao caso da Madeira. Diz-se que teria sido possível prever com maior antecedência (48 horas) o fenómeno de que resultou nos trágicos acontecimentos que todos assistimos. De facto, se houvesse a possibilidade de recurso a tecnologias de radar (que também se preconizam para os Açores!) teria sido teoricamente possível prever com maior rigor a virulência do fenómeno que se avizinhava. No entanto há que referir que alguns dos melhores modelos numéricos de previsão do estado do tempo (inclusivamente o que a Universidade dos Açores corre diariamente) indicavam uma situação potencialmente severa para aquela região. Mas uma coisa é fazer previsão do estado do tempo, outra coisa é tomar as decisões que activem procedimentos à medida da severidade que só posteriormente se vêm a revelar. É que, sabe-se também (mas não tem sido dito!), previsões semelhantes à que foi feita para aquela situação já tinham sido feitas para vários outros dias no passado recente, sem que a realidade e as consequências fossem as mesmas. Aqui é que estará o ponto mais sensível desta matéria. Saber onde, quando e como actuar. Uma grande responsabilidade para os Serviços Regionais de Protecção Civil.
No caso dos Açores, também a nossa região enferma de erros históricos de ocupação do território com os quais temos de lidar, e que conduzem a situações de grande vulnerabilidade, sobretudo a fenómenos extremos. No entanto, nesta matéria de prevenção e resposta às catástrofes naturais muita coisa tem sido feita. Naturalmente muito mais há ainda a fazer, designadamente na correcção de situações particulares, bem como na gestão futura do território. Referiria, no entanto, a preocupação e o empenho da Administração Regional com o aperfeiçoamento da capacidade de resposta a situações de catástrofe, traduzido na forma exemplar como o Serviço Regional de Protecção Civil foi constituído e tem actuado. Outro caso de referência é o CIVISA, que conjuga também a actuação da nossa Universidade com a da Administração Regional. Também no caso da previsão do estado do tempo e do estado do mar alguma coisa tem sido feita, sobretudo com o envolvimento novamente da Universidade e Administração Regional através do Centro do Clima, Meteorologia e mudanças Globais, que tem lutado por uma melhor adequação dos meios e das metodologias à nossa realidade insular e atlântica. No entanto, neste domínio, muito há ainda a fazer, sobretudo no que diz respeito ao cumprimento das obrigações que o serviço oficial nacional que reivindica a exclusividade deste campo de actuação (IM). E não será por falta competência dos nossos meteorologistas! (os Açores sempre foram escola desta matéria), mas antes por falta de visão e empenho de administrações distantes que, eventualmente por isso, também estão distantes dos problemas. O caso da antiga, e mais que óbvia, necessidade de montagem de radares meteorológicos nos Açores é disso um exemplo.
« voltar
Os alertas que nos tem chegado de diversas entidades e organismos nacionais e internacionais tem em comum um futuro catastrofista em termos climáticos. Partilha dessa visão ou terá havido algum exagero, por exemplo, em relação ao que se tem dito sobre o aquecimento global?
A alteração climática é uma realidade que não é contestada. Aliás, o clima é inerentemente variável e sempre foi assumindo características diferentes ao longo da história da Terra. Existem ciclos e factores naturais, a diferentes escalas de tempo, que implicam climas diferentes. Por exemplo, os ciclos de Milankovitch, que se completam em milhares de anos, e que têm a ver com a forma da órbita e do posicionamento do eixo da Terra. A actividade solar, as erupções vulcânicas e os ciclos biológicos também alteram o clima terrestre.
O período que vivemos tem sido no sentido de um aquecimento global que se vem verificando desde a última glaciação (aproximadamente há 18 mil anos atrás) e que pode ser comprovada com base nos registos fósseis bem como nos registos instrumentais mais recentes.
A questão prende-se mais com a evolução mais recente do clima, sobretudo no período pós revolução industrial, onde se verifica uma tendência mais acentuada do aquecimento do planeta em fase com o aumento da concentração de alguns gases com efeito de estufa (GEE), designadamente o dióxido de carbono. A polémica à volta desta questão relaciona-se com o grau de responsabilidade do homem para este aquecimento. Incontestável é o facto de a humanidade estar a recorrer às reservas fósseis de carbono que, de outra forma, estariam retidas por muitos milhões de anos. Através da sua queima estão a ser injectadas directamente na atmosfera quantidades de gases com efeito de estufa superiores àquelas que os processos naturais podem retirar. Para além disso, o aumento da população do globo, a poluição atmosférica de origem antropogénica e a desflorestação, contribuem para o aumento do efeito de estufa, bem como para a redução dos “sumidouros” naturais de carbono. Assim sendo, e não vejo como se pode negar a acção do homem neste fenómeno.
Já a forma como o assunto está a ser abordado pode, em alguns casos, assumir um tom demasiado catastrófico. Não por o assunto não merecer um empenho radical e global da humanidade, mas antes porque as mensagens para serem efectivas, para além de chamar a atenção para os problemas, devem ser feitas à medida da nossa capacidade de intervenção. E ainda temos alguma capacidade de intervenção! Designadamente através da alteração do modo de vida, de consumo e de reposição dos valores universais da humanidade. Só que a alteração climática, que pode ser rápida a partir de determinados patamares, não se compadece com o tempo necessário para a mudança de mentalidades. Assim sendo, a nossa maior capacidade de intervenção individual face à urgência de um problema de tal magnitude passa pelo exercício de cidadania, com recurso aos instrumentos colectivos que as democracias nos proporcionam: escolher as administrações (a todos os níveis) que promovam políticas ambientais e sociais mais correctas e mais justas, bem como exigir delas o seu cumprimento.
Luís
A universidade dos Açores não deveria providenciar uma licenciatura virada para as questões ambientais e climáticas em particular?
A Universidade dos Açores promove vários cursos relacionados com temáticas ambientais onde as relações com o ambiente climático são abordadas. Por esta via estabelecem-se as relações entre o clima e as alterações climáticas com os diferentes temas onde estas podem ter maior impacto, quer numa perspectiva da mitigação do problema quer na alternativa de adaptação ao mesmo, designadamente no domínio dos recursos hídricos, da biodiversidade e da gestão do território.
Paulo
Gostaria de saber qual o percurso académico que é necessário seguir para se poder ser climatologista. Há alguma área específica do ensino que um aluno possa escolher?
A Climatologia é uma ciência que tradicionalmente é abordada de uma forma sectorial. Ou seja, é enquadrada num ramo particular do conhecimento. Por exemplo, nos cursos agrícolas temos a agro-climatologia, nos cursos de engenharia do ambiente que tratam dos recursos hídricos e dos fenómenos hidrológicos temos a hidro-climatologia, nos cursos de ambiente e de biologia que tratam da biodiversidade e recursos naturais a eco-climatologia; nos cursos de geologia a paleo-climatologia, nos cursos de engenharia que tratam das relações entre os elementos do clima e o dimensionamento e gestão de infra-estruturas o clima térmico, o clima da agitação marítima, o clima da radiação solar, o clima eólico, etc,. Nos cursos de geografia também, já que tratam do estudo da distribuição dos climas e das suas implicações na distribuição das diferentes paisagens, na ocupação do território e na actividade humana.
Já o ensino da Meteorologia, ramo da ciência muito interligado com a Climatologia, o estudo dos fenómenos climáticos é feito na perspectiva de os compreender e interpretar, de os medir, de os sistematizar e de os simular (previsão do estado do tempo). Para esta formação é necessário uma forte componente em física, em química e, naturalmente, em matemática.
Lino
Que opinião tem sobre as associações ambientalistas, regionais, nacionais e internacionais em termos de defesa e alerta para as boas práticas ambientais e que influenciam directamente o clima da Terra?
As associações ambientalistas, em todas as suas esferas de intervenção, têm tido uma grande importância na formação da consciência ambiental colectiva, e têm cada vez mais capacidade de influenciar as políticas sectoriais. Constituem, por outro lado, o “braço armado permanente” das populações em temas que requerem um controlo da actividade das administrações. Devem, por conseguinte, basear a sua acção num conhecimento aprofundado das matérias que abordam, quer na perspectiva da identificação dos problemas, quer na melhor ciência e metodologias para os resolver. Assim sendo, têm uma grande responsabilidade na forma como transmitem a sua mensagem que deve ser clara, razoável e adequada aos enquadramentos sócio económicos para os quais se destinam. Infelizmente, pese embora a boa vontade que as anima, assiste-se muitas vezes a uma acção pouco esclarecida, baseada em estereótipos importados de enquadramentos distintos, à face de sensibilidades desligadas das realidades onde actuam. Por estas razões são frequentemente desvalorizadas até mesmo pelas próprias populações. É que nesta área de intervenção é necessário ter-se o discernimento e o bom senso suficientes para adequar o discurso às diferentes realidades, à sensibilidade, à cultura e à dimensão humana dos problemas. Devem também ser críticas em relação ao próprio comportamento das comunidades de que emanam, e não remeter apenas, tal como muitas vezes acontece, a solução dos problemas para o foro da administração do estado. Trata-se da velha questão (adaptada) de não só perguntar “o que é que o estado pode fazer por mim”, mas também, “o que é que eu posso fazer pelo estado”. Senão, correm o risco de apenas serem vistas pela sua faceta mais populista, a da reivindicação.
Nuno
Boa tarde, gostava de lhe perguntar se acha que os Açores têm todo material possível à disposição, para detectar uma eventual catástrofe ou seriam necessários mais meios? Como sabemos é impossível prever uma catástrofe, mas no caso da Madeira viu-se que seria possível antecipar em cerca de 48 horas o temporal e assim evitar algumas mortes! Que meios temos nós e se são regularmente testados, para que em caso de verdadeira catástrofe estejam em pleno funcionamento.
As catástrofes resultam normalmente de uma conjugação de factores que evoluem em escalas de tempo distintas, em enquadramentos sócio-económos diferentes, e devidas a fenómenos sobre os quais o conhecimento está em constante evolução. O caso da Madeira é exemplo disso, onde às opções de ocupação do território (que evoluíram ao longo de centenas de anos), se sobrepôs um fenómeno que só muito recentemente é susceptível de ser previsto (com limitações!) ou acompanhado (também com limitações!). Nestas circunstâncias nem sempre é possível garantir que se tomam (ou tomaram!) sempre as melhores opções para as prevenir ou mitigar. Para além disso, como o período de recorrência de determinados fenómenos é muitas vezes longo, a memória colectiva, sendo curta, tem tendência em desvalorizar os riscos associados às opções que vão sendo adoptadas. Cá está uma área em que a sociedade tem de depositar maior confiança nas suas instituições, exigindo delas (e aceitando!) o papel de reguladoras das actividades que, independentemente da escala de tempo, possam melhor garantir, à luz da melhor ciência da altura (muitas vezes do comum bom senso!), a segurança das populações e dos seus bens. Mesmo que não seja para o curto período de vida de cada um de nós.
Para além desta predisposição colectiva para uma cultura cívica de segurança, há que ter a consciência de que a capacidade de previsão da maioria dos fenómenos susceptíveis de se transformar em catástrofes, climatéricas ou outras, é ainda muito limitada. A natureza de determinados fenómenos naturais assim o determina. Temos de saber viver com esta realidade. Mesmo reconhecendo que o conhecimento cientifico e a tecnologia têm contribuído muito para mitigar estas limitações, há que ter a consciência que, atendendo à complexidade dos fenómenos, à dimensão territorial e aos recursos financeiros (que são sempre limitados), nunca se será possível implementar dispositivos de monitorização que garantam 100% de segurança às populações, ou mesmo o recurso à tecnologia mais actual que possa existir no mercado.
Voltando ao caso da Madeira. Diz-se que teria sido possível prever com maior antecedência (48 horas) o fenómeno de que resultou nos trágicos acontecimentos que todos assistimos. De facto, se houvesse a possibilidade de recurso a tecnologias de radar (que também se preconizam para os Açores!) teria sido teoricamente possível prever com maior rigor a virulência do fenómeno que se avizinhava. No entanto há que referir que alguns dos melhores modelos numéricos de previsão do estado do tempo (inclusivamente o que a Universidade dos Açores corre diariamente) indicavam uma situação potencialmente severa para aquela região. Mas uma coisa é fazer previsão do estado do tempo, outra coisa é tomar as decisões que activem procedimentos à medida da severidade que só posteriormente se vêm a revelar. É que, sabe-se também (mas não tem sido dito!), previsões semelhantes à que foi feita para aquela situação já tinham sido feitas para vários outros dias no passado recente, sem que a realidade e as consequências fossem as mesmas. Aqui é que estará o ponto mais sensível desta matéria. Saber onde, quando e como actuar. Uma grande responsabilidade para os Serviços Regionais de Protecção Civil.
No caso dos Açores, também a nossa região enferma de erros históricos de ocupação do território com os quais temos de lidar, e que conduzem a situações de grande vulnerabilidade, sobretudo a fenómenos extremos. No entanto, nesta matéria de prevenção e resposta às catástrofes naturais muita coisa tem sido feita. Naturalmente muito mais há ainda a fazer, designadamente na correcção de situações particulares, bem como na gestão futura do território. Referiria, no entanto, a preocupação e o empenho da Administração Regional com o aperfeiçoamento da capacidade de resposta a situações de catástrofe, traduzido na forma exemplar como o Serviço Regional de Protecção Civil foi constituído e tem actuado. Outro caso de referência é o CIVISA, que conjuga também a actuação da nossa Universidade com a da Administração Regional. Também no caso da previsão do estado do tempo e do estado do mar alguma coisa tem sido feita, sobretudo com o envolvimento novamente da Universidade e Administração Regional através do Centro do Clima, Meteorologia e mudanças Globais, que tem lutado por uma melhor adequação dos meios e das metodologias à nossa realidade insular e atlântica. No entanto, neste domínio, muito há ainda a fazer, sobretudo no que diz respeito ao cumprimento das obrigações que o serviço oficial nacional que reivindica a exclusividade deste campo de actuação (IM). E não será por falta competência dos nossos meteorologistas! (os Açores sempre foram escola desta matéria), mas antes por falta de visão e empenho de administrações distantes que, eventualmente por isso, também estão distantes dos problemas. O caso da antiga, e mais que óbvia, necessidade de montagem de radares meteorológicos nos Açores é disso um exemplo.







