Presidente da Quercus São Miguel
O Presidente da Quercus São Miguel responde às perguntas dos leitores do AO online
Nuno
Quais os motivos que o levaram a candidatar-se à QUERCUS?
Caro Nuno, foram vários os motivos que me levaram a candidatar à Quercus, mas deixe-me fazer uma resenha do passado. Sempre me interessei pela natureza, desde os meus tempos de criança, que os passava no Nordeste, até aos escoteiros e aos inúmeros acampamentos que realizávamos. Com estas actividades fui desenvolvendo uma atenção, um gosto especial pela natureza. Mais tarde, tive a oportunidade de conviver com algumas pessoas que tinham essa preocupação ainda mais apurada do que eu e que me fizeram aprender e a cuidar mais do que é de todos nós, sendo inclusivamente desafiado por uma destas pessoas a comparecer numa reunião dos anteriores dirigentes da Quercus. Percebi que todos tinham uma enorme vontade de continuar com o projecto, mas o difícil era alguém avançar para a liderança de uma lista. Passados poucos dias, soube que iria haver uma nova direcção, que durou apenas um dia. Caiu-se de novo num enorme vazio, até porque ninguém queria assumir esta responsabilidade. Iniciei um processo de auscultação de vários associados, trouxe novos associados à Quercus e após cerca de 4 meses de reuniões, de definição do plano de actividades e da congregação de esforços, achei que estavam reunidas as condições para uma candidatura ao Núcleo. Esta candidatura e posterior eleição teve como principais objectivos: dignificar de novo o núcleo da Quercus São Miguel, após as infelizes trapalhadas; colocar a Quercus no patamar a que habituou os Açorianos no tempo do Dr. Veríssimo Borges; Ter de novo uma voz forte em defesa do ambiente nos Açores; Sensibilizar a população para a importância da defesa do nosso património ambiental; Promover uma reeducação ao nível da utilização de recursos; Estar atento ao ordenamento do território, entre outros. Todas estas acções são o infeliz reflexo da sociedade em que vivemos e há que as denunciar. Vivemos numa sociedade muito pouco participativa e reivindicativa, também pelo facto de existir uma enorme peso do Governo Regional nas áreas que deveriam ser deixadas à sociedade civil, limitando assim, em grande medida a acção destas mesmas instituições.
Nuno
Qual o plano das actividades da QUERCUS para 2010, e como pensam dar visibilidade às futuras acções de sensibilização ambiental e defesa do nosso património natural, que nestes últimos tempos tem sido altamente atacado pelas "SCUT" ?
O plano de actividades para 2010 está em fase de conclusão, no entanto posso adiantar que apostaremos em acções de sensibilização ambiental para os mais novos, reactivaremos e enriqueceremos a nossa biblioteca e DVDteca para disponibilizá-las aos associados e público em geral, desenvolveremos conferências descentralizadas pela ilha, ao mesmo tempo que temos a expectativa de organizar um seminário, onde se debatam assuntos como o ordenamento do território, a eutrofização das lagoas, entre outros. Iniciaremos sempre a nossa acção com uma postura de diálogo e de tentativa de conciliação de todas as partes, no entanto, caso não seja possível, enveredaremos por formas mais directas e mais incisivas de reivindicação. As SCUT têm causado um enorme impacto ambiental, mas importa referir que nós não discutimos acessibilidades. Discutimos apenas o grave impacto que infelizmente têm provocado, o qual é minimizado pelos responsáveis da área, que consideram que basta depois colocar umas plantas ornamentais e endémicas para que tudo fique bem. Enfim… Para dar mais um exemplo, soube ainda hoje que há uma intenção da “destruição” completa da orla costeira desde o final de Água de Pau até ao final da praia grande de Água d’Alto, construindo uma via litoral, que irá descaracterizar por completo aquela zona. Mais uma vez lamentável.
Nuno
Sendo a Quercus uma associação ambientalista, qual a sua posição relativamente ao abate das árvores na estrada regional que vai dar ao Nordeste, nomeadamente na zona de Santa Iria?
A nossa opinião é obviamente desfavorável. No entanto, minimizou-se o prejuízo, pois o projecto inicial apontava para o derrube de cerca de 300 árvores, tendo o Secretário Regional Álamo Menezes, garantido, numa reunião connosco, que apenas iriam abater cerca de 10-12, após a nossa reivindicação. Continuaremos a “fiscalizar” esta situação.
André
O que tem a dizer sobre o crime ambiental da Fajã do Calhau?
Lamentável a todos os níveis. A obra, a justificação da obra, o impacto da obra e as declarações dos responsáveis. Considero um verdadeiro crime ambiental, uma enorme e profunda ferida que jamais irá sarar. Um estúpido erro humano.
Maria
O que pensa sobre as obras na Fajã do Araújo, a Quercus tem acompanhado esta situação?
Consideramos que todas as obras deveriam ser desenvolvidas segundo uma política ambientalmente definida e sustentável. Não podemos adequar e interpretar a legislação consoante as nossas necessidades. Nesta lógica, preocupa-nos o não cumprimento dos Planos de Ordenamento, ou mesmo o espaço de tempo que vai entre o anúncio e a aplicação prática do mesmo, dando tempo a que se façam inúmeras intervenções antes do seu impedimento.
Esta situação, bem como todas as outras, será acompanhada e alvo de reflexão a seu tempo, no entanto o que mais nos preocupa é a destruição e o acesso massificado aos nossos “recantos” naturais, que são a riqueza das nossas ilhas. Outros exemplos que dou são a Lagoa do Fogo, área protegida mas que carece de monitorização e fiscalização; A estrada de asfalto construída ao longo de uma parte da costa de Santo António, que no nosso entender é ilegal. Enfim…há uma lista enorme, infelizmente.
Alexandra
Qual a vossa posição em relação à tentativa de popularização das touradas nos Açores? Temos visto um número crescente deste tipo de eventos em localidades onde não há qualquer tipo de tradição como é o caso da ilha de São Miguel. No caso do tema sorte de varas voltar à ribalta, qual será a posição da Quercus?
A nossa posição é totalmente contrária. Achamos que a bestianização do nosso povo não pode ser uma prioridade dos governos e das autarquias. Não podemos viver de pão e circo, de satisfação pela exploração/mau trato do animal pelo homem. Somos frontalmente contra a sorte de varas, bem como contra a proliferação deste tipo de eventos onde não são tradição. Além deste aspecto, gostaria de recordar que toda esta situação seria evitada se o governo regional, como garantiu o seu presidente, finalmente legislasse sobre o assunto, pois foi prometida legislação que permitisse organizar todas estas manifestações, o que até agora não aconteceu.
Regina
A gestão de resíduos é provavelmente o nosso maior problema. O que sugere a Quercus para que S. Miguel entre definitivamente no comboio da modernidade para resolver este problema?
Este é um assunto bastante complexo e tem que ser abordado de uma forma séria e descomprometida. O PEGRA já dá algumas boas indicações, mas a nossa opinião é que peca por tentar transformar este assunto tão sério num negócio de milhões. Os bons exemplos do concelho do Nordeste (estação de vermicompostagem e a recolha selectiva de lixos porta-a-porta) e numa escala menor, do concelho de Ponta Delgada (recolha selectiva de lixos porta-a-porta) deveriam ser replicados e potencializados em outros concelhos. Achamos que devido à nossa dimensão, a recolha porta-a-porta deveria ser implementada em toda a região, criando condições para o tratamento dos respectivos resíduos e exportando os que não conseguirmos tratar.
Tomaz
Qual a avaliação que faz das políticas regionais de conservação da natureza, nomeadamente no que diz respeito à recém-criada Rede Regional de Áreas Protegidas?
À partida são políticas bem aceites, que promovem a discriminação positiva, no entanto julgo que o grande problema é antes de mais a questão de fiscalização e monitorização. Não basta ter o título e colocar uma placa no acesso ao local, se depois não cuidarmos/preservarmos estas zonas. Interessam-me acções mais concretas e uma aposta clara nestas áreas.
André
A SRAM é cada vez mais conhecida pelas suas grandes obras e cada vez menos pelo seu papel na protecção e valorização ambiental das nossas ilhas. O que se propõe fazer para ajudar a inverter essa tendência do "betão"?
O que é pena é que nem estas grandes obras tenham a preocupação de enquadramento paisagístico, ou mesmo certos autarcas avancem com obras e só depois de estarem concluídas solicitem a autorização da SRAM para a mesma. Somos contra a política do facto consumado. É urgente promover o debate e a discussão pública bem como a mobilização da sociedade civil de modo a conseguirmos ter algum peso. Caso contrário, torna-se complicado conseguir resistir ao lóbi do betão. Todos somos co-responsáveis pela gestão e utilização dos recursos da nossa terra.
Sílvia
Quais são na sua opinião os 3 maiores problemas ambientais nos Açores? E como propõe abordá-los?
1) Falta de preocupação ambiental e de um desenvolvimento sustentável levando também a uma péssima política de ordenamento do território;
2) Escassez dos recursos naturais como a água;
3) Gestão e tratamento de resíduos
Primeiro actuaremos numa lógica de prevenção, denunciando e propondo alternativas às diversas situações com que somos confrontados. Depois actuaremos com acções e campanhas de sensibilização, especialmente direccionados para a população mais jovem. Por último, pressionar as entidades competentes para que de uma vez por todas encarem o ambiente como algo a respeitar e não como o parente pobre do desenvolvimento dos Açores. Queremos desenvolvimento, mas que seja sustentável.
Luís
O que irá diferenciar a Quercus-SM das restantes associações ambientais da ilha em termos de estratégias, objectivos e intervenção política?
Esta é uma boa pergunta. Efectivamente já existem muitas e boas associações ambientais, que têm desenvolvido um excelente trabalho. Há que reconhecê-lo. No entanto a Quercus tem como objectivo ser uma associação independente e com uma forte capacidade interventiva. Outro dos nossos objectivos passa pela criação de uma plataforma de entendimento entre todas estas associações, de modo a conseguir ter uma posição firme, não dividida, que permita um tratamento semelhante entre todas e uma defesa intransigente do nosso meio. Relativamente à intervenção política, consideramos que só temos a ganhar em pressionar os partidos políticos, mantendo uma estreita comunicação com todos, fazendo lóbi a favor do ambiente e garantindo o seu compromisso nesta batalha.
Nélia
Boa Tarde, depois de falhado o assalto à Quercus S. Miguel por figuras visivelmente afectas ao PS por questões estatutárias, sucedeu-se uma estratégia similar bem-sucedida por parte de elementos afectos ao PSD entre os quais se inclui. Porquê partidarizar uma associação ambientalista? Espera ser a oposição à política ambiental do Governo Regional?
Nélia, compreendo o paralelismo, no entanto este não está correcto. A minha candidatura à Quercus é tudo menos política ou partidária. Aliás, olhando para a minha direcção, tenho militantes do PSD, do PS, que inclusivamente pediu a suspensão do seu cargo de modo a candidatar-se à Assembleia Municipal do seu concelho, do PP e independentes. A assembleia-geral apresenta militantes de quase todos os partidos. Por aqui percebemos que não há nenhuma estratégia política. O facto de serem militantes de um partido, no meu entender, é apenas mais um acto de cidadania, que mostra claramente que a defesa do ambiente é suprapartidária e que ninguém é “dono” desta luta. A Quercus tem provas dadas de que não se deixa manipular ou mesmo subjugar por ninguém. Quanto à oposição à política ambiental do governo e deixe-me acrescentar das autarquias, apenas posso referir que teremos uma posição firme e intransigente, não querendo ser opositores mas sim os primeiros colaboradores, salvaguardando sempre o ambiente.







