Vime do artesanato dos Açores é cozido nas águas quentes das caldeiras das Furnas

Vime do artesanato dos Açores é cozido nas águas quentes das caldeiras das Furnas

 

LUSA/AO Online   Regional   17 de Fev de 2015, 13:45

É nas águas quentes das caldeiras das Furnas, nos Açores, que os artesãos da ilha de São Miguel vão cozer o vime que depois trabalham para fazer as suas peças.

João Andrade, um dos poucos artesãos que restam na ilha, explica, contudo, que não era apenas no vale das Furnas que se cozia o vime, uma vez que na Caldeira Velha, na Ribeira Grande, este processo também tinha lugar até 2013. A Caldeira Velha, situada no vulcão do Fogo, mais conhecido como lagoa do Fogo, é um ‘spa’ natural alimentado por águas quentes férreas, que atrai milhares de turistas e locais, constituindo uma das principais atrações turísticas de São Miguel. João Andrade, natural de Água de Pau, concelho da Lagoa, trabalha o vime como matéria-prima para peças de artesanato desde os nove anos de idade e refere que, em vários locais do país, o vime também é cozido, mas em panelas de grande dimensão colocadas ao lume. Mas em São Miguel, “o vime é cozido durantes três horas" nas caldeiras de águas quentes naturais. "Depois é descascado e trabalhado, bem como envernizado, mantendo-se assim por mais tempo”, explica o artesão, que possui os seus fornecedores regulares. O artesão, que cultiva igualmente o vime, de preferência em terrenos férteis em pedra pomes, o que aumenta a sua qualidade, recorda que o acesso à Caldeira Velha, com os molhos de vime às costas, era no passado feito por um outro caminho, acidentado, alternativo ao que permite hoje o acesso fácil aos banhos. João Andrade recorda-se do tempo em que os trabalhos em vime desempenhavam um papel importante no apoio à atividade agrícola, sendo hoje, predominantemente, um produto procurado pelos turistas e emigrantes açorianos radicados nos EUA e Canadá. O artesão explica que o vime é hoje trabalhado para fazer revestimentos para garrafas de vinho e licores, cestos para piqueniques, cestinhas de mesa para apoio ao pequeno-almoço, cestos para transporte de produtos agrícolas ou peças de mobiliário(sofás e mesas). Rosa Machado, técnica superior do Centro Regional de Apoio ao Artesanato, explica, por seu turno, que o vime existe nos Açores desde o início do povoamento das ilhas e constituía uma fonte de rendimento, de forma predominante, para os mais desfavorecidos, no trabalho agrícola. De acordo com Rosa Machado, as primeiras peças eram assim direcionadas, preferencialmente, para a agricultura e só mais tarde surgem as peças com outro formato, vocacionadas para uso doméstico. O artesanato baseado em vime, que ainda mantém alguns artesãos no ativo em São Miguel, é muito escoado nas feiras regionais, nacionais e no mercado norte-americano, junto da diáspora, muito embora se venda também no local de trabalho dos artesão, segundo Rosa Machado. A produção do vime, que decresceu entretanto, segundo Rosa Machado, gerava no passado, por exemplo, cestos para as vindimas nos Açores, a par da cesta redonda com asa, que tinha como função levar o almoço. Produzia-se também a cesta da roupa, o cesto do peixe utilizado pelos vendilhões para vender pelas ruas o pescado e os balaios, um cesto grande de forma circular, muito caraterístico das ilhas Faial e Graciosa, entre muitos outros produtos. O artesanato com base em vime pode ser encontrado nos Açores nos postos de turismo das diferentes ilhas, no comércio tradicional, em lojas da especialidade, no próprio vale das Furnas, junto às caldeiras, durante as festas do Santo Cristo dos Milagres (São Miguel) e nas feiras.


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