Vida díficil para Obama face onda republicana em Washington


 

AO/Lusa   Internacional   1 de Nov de 2014, 15:49

Os norte-americanos elegem na terça-feira um novo Congresso e as projeções apontam que poderá passar para o controlo dos republicanos, pela primeira vez desde 2006, fazendo antever um futuro difícil para o Presidente democrata Barack Obama.

 

Os democratas “vão ter um mau dia eleitoral”, admitiu Jay Carney, que foi até junho passado porta-voz da Casa Branca, numa entrevista à estação norte-americana CNN na passada terça-feira.

Os republicanos, já maioritários na Câmara de Representantes (câmara baixa do Congresso norte-americano), surgem nas sondagens com fortes hipóteses de arrebatar a atual maioria democrata no Senado (câmara alta) e de moldar o poder legislativo durante os últimos dois anos do mandato presidencial de Obama, atualmente enfraquecido aos olhos da opinião pública norte-americana.

Em declarações à Lusa, o comentador de política internacional Bernardo Pires de Lima referiu que, tal como todas as ‘midterm’ (eleições intercalares), “estas serão um referendo presidencial e invariavelmente punirão, também, o partido do Presidente”.

De acordo com o investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) da Universidade Nova de Lisboa, só em três das trinta e oito ‘midterms’ o partido do Presidente subiu.

“Penalizar a Casa Branca é por isso natural. Importante é saber como pode Obama capitalizar um Congresso de maioria republicana até 2016”, acrescentou Bernardo Pires de Lima, antevendo que Obama terá de se focar em menos políticas públicas e exercer mais o poder de veto presidencial.

Perante o eventual domínio republicano nas duas câmaras, Tiago Moreira de Sá, professor na Faculdade de Ciência Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, indicou que neste momento destacam-se duas teses.

“Uma das teses é que fica tudo bloqueado, desde as medidas propostas pelo Presidente Obama relativamente à imigração, ao ambiente, ao controlo de armas, (…) mas também as nomeações que são da responsabilidade do Presidente, mas que precisam da confirmação do Senado”, afirmou à Lusa o especialista, referindo-se, por exemplo, a embaixadores, juízes federais ou a altos cargos do exército.

Uma das grandes bandeiras da atual administração, o 'Obamacare' (a reforma do sistema de saúde norte-americano), também poderá estar em risco, admitiu Tiago Moreira de Sá, que também integra o quadro de investigadores do IPRI.

“Essa é outras das possíveis consequências, a destruição pedaço a pedaço do 'Obamacare'. Bloquear daqui para a frente e desmantelar o que está feito”, afirmou o professor, acreditando que existirá, perante tal cenário, “um aumento considerável de alguns mecanismos que o Presidente dispõe para legislar”, como é o caso das ordens executivas.

Já a outra tese, segundo Tiago Moreira de Sá, traça um caminho totalmente oposto, em que os republicanos optam por não bloquear o sistema e assumem uma atitude responsável para não correr o risco de perderem futuras eleições, nomeadamente as presidenciais de 2016.

“Isso já aconteceu no passado, durante o período de [Bill] Clinton. Quando os republicanos, durante o período de Newt Gringrich [antigo líder da Câmara dos Representantes], que dominavam as duas câmaras, bloquearam totalmente o governo e depois foram arrasados na reeleição de Clinton [em 1996]”, recordou o professor, que está atualmente a escrever um livro sobre as relações entre Portugal e os Estados Unidos, desde 1776 (ano da independência norte-americana) até à atualidade, a publicar em 2015.

Para Bernardo Pires de Lima, esta eventual maioria republicana dará “um novo ‘momentum’ à corrida republicana para 2016”, abrindo o “entusiasmo para apresentação de candidaturas, testar apoios e financiamentos”.

Mas também vai expor, segundo o colunista de política internacional, “a luta interna ideológica” dentro do Partido Republicano, “mais radicalizado que noutros tempos, muito refém do Tea Party [a ala mais conservadora da força política] na Câmara dos Representantes, e pouco dado a compromissos com os democratas”.

Do lado democrata, e numa referência a Hillary Clinton, o nome mais falado para suceder a Obama, Bernardo Pires de Lima acredita que a antiga secretária de Estado vai estar atenta e a avaliar “a herança e os adversários republicanos”, rematando: “A campanha para 2016 arranca na noite de 4 de novembro de 2014”.



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