Vida continua em Atenas no "dia seguinte" ao referendo das grandes decisões

Vida continua em Atenas no "dia seguinte" ao referendo das grandes decisões

 

Lusa/AO online   Internacional   6 de Jul de 2015, 12:23

Nas ruas de Atenas, apenas as manchetes dos jornais presos aos arames dos quiosques anunciavam esta segunda-feira o novo terramoto político que se abateu sobre a Grécia no domingo, num dia de verão idêntico a tantos outros e sem sobressaltos.

 

"Acabei de ser despedida", diz Gkely, 31 anos, quando passa junto ao Palácio da Justiça na avenida Alexandras, acompanhada por uma amiga. Trabalhava numa agência cultural que organiza concertos e festivais com músicos e artistas estrangeiros, forçada a reduzir pessoal pela impossibilidade de enviar dinheiro para o estrangeiro e garantir a vinda dos contratados.

"Foi muito importante que o povo grego tenha decidido o 'Não' e esta proposta específica do Governo, mas na minha opinião nada vai mudar e seria sempre difícil para nós independentemente do resultado", indica.

Os gregos rejeitaram no domingo por ampla maioria as propostas dos credores internacionais, abrindo caminho à incerteza sobre a permanência da Grécia na zona euro.

Segundo os resultados apurados depois de escrutinados 95% dos votos, 61,31% dos gregos disseram "Não" às propostas dos credores.

Já hoje, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, decidiu demitir-se, a pedido do primeiro-ministro e para o final do dia está agendado um encontro entre os chefes de Estado francês e alemão para discutir a crise atual.

A "mensagem enviada pelo povo grego" à Europa foi um aspeto mais relevante da consulta, diz Gkely. "Julgo que nos sentimos agora mais seguros pelo facto se termos tido uma hipótese de dizer não", afirma.

No entanto, considera que a pressão dos credores "vai continuar" e que a única forma de o país recuperar economicamente implica um regresso à sua antiga moeda, o dracma.

"Não será fácil mas julgo que é claro para todos nós. Ainda não nos sentimos preparados para esse desafio, é fácil dizer coisas mas apenas quando as enfrentamos temos de decidir o que fazer e assumir as consequências. E estou com medo do que vai acontecer", admite.

Gkely pede desculpa por poder ser mal interpretada, mas exprime-se num inglês correto também para assinalar que no seu país "todos devem pensar também nos outros", na sequência de cinco anos de draconianas medidas de austeridade após a aplicação de dois resgates internacionais negociados pelos anteriores governos com a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional.

"Nos últimos anos vemos situações muito difíceis na Grécia, crianças que estão com fome nas escolas, pessoas com a minha idade que dormem nas ruas", relata.

Apesar do desfecho do referendo, Gkely diz que ninguém pode garantir o que vai acontecer nos próximos dias, mas mostra-se convencido de que a UE não deixará a Grécia sair facilmente desta situação.

Ao pronunciar-se sobre a demissão do ministro das Finanças Yanis Varoufakis, remete a decisão para os "jogos da política" e admite que tenha sido forçada pelo primeiro-ministro, porque "era claro que a UE não o queria, nem querem Alexis Tsipras".

Em passo apressado, Pamassimos, fotojornalista de 35 anos e fotojornalista passa na avenida Kifissias com o seu equipamento a tiracolo e considera que foram os credores a impor o afastamento do ministro das Finanças, que definiu como uma "pessoa inteligente" e com opiniões próprias.

"Sabia o que estava a fazer, e não se limitava a escrever no papel, gostava de concretizar as suas ideias. Para as negociações, será mais fácil Varoufakis não estar presente", admite.

Quanto ao referendo de domingo, traduzido numa clara vitória do partido da esquerda radical no poder, admite que "a partir de hoje" comecem a ser tomadas novas decisões.

"Se o resultado do referendo fosse mais equilibrado, seria diferente, mas com esta diferença entre o 'Não' e o 'Sim' foi enviada uma mensagem sobre o que o povo pretende", salienta.

Pamassimos realça que neste "dia seguinte" não se verificou qualquer situação de pânico, apesar de também prognosticar tempos difíceis. "Mas espero que tudo melhor rapidamente, são inevitáveis novas medidas de austeridade e por enquanto devemos manter-nos na zona euro. Penso que a saída imediata do euro foi o maior receio, mesmo para os que votaram 'Não'", aponta.

Quanto à situação nos bancos, encerrados há uma semana por ordem do governo para evitar mais fugas de capitais e levantamentos de depósitos, diz que devem continuar encerrados pelo menos mais sete dias, e com as medidas a serem anunciadas progressivamente.

"É algo que tem de ser feito, para que tudo esteja normal. Se os bancos abrissem hoje ou amanhã, haveria uma corrida para levantar os depósitos. Para quem trabalha com bancos ou empresas fora da Grécia é uma situação complicada porque não se pode comprar, vender, transferir dinheiro, é um problema".

Mais desalentado, e revoltado, encontra-se Stadis, 36 anos, dono de um pequeno quiosque numa rua perto do centro de Atenas.

"Na Grécia as pessoas têm fome. Mas não penso que com o resultado do referendo a Grécia tenha mais condições para negociar. Os europeus vão continuar a pressionar, não sei?", arrisca.

"Estou aqui e levo três anos para garantir algum dinheiro, apenas ponho dinheiro neste quiosque. Não acredito em ninguém. E não tenho medo de nada, porque perdi quase tudo", remata.


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