Vaticano prepara abertura de arquivos sobre ditadura na Argentina

Vaticano prepara abertura de arquivos sobre ditadura na Argentina

 

Lusa/AO online   Internacional   23 de Mar de 2016, 14:17

O Vaticano está a preparar a abertura dos arquivos sobre o período da ditadura na Argentina (1976-1983), o que poderá revelar novos testemunhos e esclarecimentos sobre os desaparecidos.

 

O trabalho de catalogação dos arquivos, indispensável à abertura, "decorre normalmente e poderá estar concluído nos próximos meses", explicou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

"Depois, será necessário estudar o tempo e as condições" para a consulta destes arquivos "em conformidade com a conferência episcopal argentina", acrescentou.

"Estamos já a tentar responder a pedidos específicos sobre questões concretas de carácter judiciário ou humanitário", disse.

Na quinta-feira, a Argentina vai assinalar o 40.º aniversário do golpe de Estado que colocou a junta no poder.

Os arquivos do Vaticano contêm, em particular, os registos dos núncios colocados em Buenos Aires sobre posições dos bispos, política da junta, procedimentos judiciários, detenções e desaparecimentos.

Um bom número de bispos argentinos apoiou o poder militar, em oposição a uma franja de extrema esquerda do clero.

Jorge Bergoglio, que ainda não era bispo, procurou manter a distâncida da junta. De acordo com testemunhos, divulgados após ter sido eleito papa, procurou ajudar dissidentes, religiosos ou não.

Cerca de 30 mil pessoas desapareceram durante a ditadura e os seus familiares, incluindo as Avós da Praça de Maio, desejam que o papa argentino os ajude a saber o que aconteceu.

"A decisão (...) tem importância histórica para toda a região latino-americana", afirmou recentemente Luis Badilla, perito da Rádio Vaticano, citado pelo 'site' de referência sobre assuntos vaticanos Il Sismografo.

Na América Latina, golpes de Estado militares instauraram as ditaduras de 1964 no Brasil até à queda de Augusto Pinochet no Chile em 1990, lembrou Badilla.

De acordo com a imprensa argentina, o papa prometeu ao embaixador do Uruguai no Vatiano a abertura dos arquivos sobre a ditadura de Montevideu (1973-1885).

No final da audiência geral, que o papa efetua todas as quartas-feiras, Francisco aproximou-se dos familiares dos desaparecidos, como Françoise Tisseau, mãe de Marie Anne Erize Tisseau desaparecida em 1976. "Este beijo é para todas as mães que tanto sofreram por causa do desaparecimento dos filhos", declarou o papa, ao abraçar Françoise.

"Foi um momento muito comovente, chorávamos todos", contou Marie-Noelle Tisseau, irmã de Marie Anne.

A justiça italiana deverá decidir se existem elementos suficientes para abrir um processo contra Carlos Malatto, antigo militar argentino a viver em Itália desde 2011, acusado de ser o responsável de vários "desaparecimentos", incluindo o de Marie Anne Tisseau.


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