Valorizar a diversidade microbiana dos Açores

Valorizar a diversidade microbiana dos Açores

 

Paula Aguiar   Regional   18 de Nov de 2010, 16:13

"A chave da diversidade de oferta está na riqueza natural das ilhas e esta mais-valia económica encontra-se intrinsecamente ligada ao sector turístico, apelando sem causar hesitação para a necessidade de preservação e gestão da diversidade do Património Natural Açoriano"
Os Açores são uma região privilegiada no que diz respeito à diversidade natural. A condicionante insular dota-nos de uma espectacular variedade de habitats e ecossistemas. Sem dúvida, uma das maiores atracções para os que nos visitam é a possibilidade de numa única semana poderem deambular por um vasto leque de actividades em contacto com a Natureza. Nos Açores é possível mergulhar pela manhã, efectuar trilhos pedestres de tarde, demolhar-se numa das várias nascentes e, no dia seguinte, observar aves, visitar cavidades vulcânicas ou partir em safaris geovulcanológicos. A chave da diversidade de oferta está na riqueza natural das ilhas e esta mais-valia económica encontra-se intrinsecamente ligada ao sector turístico, apelando sem causar hesitação para a necessidade de preservação e gestão da diversidade do Património Natural Açoriano.
Pássaros, plantas, rochas e até mesmo caracóis já chegaram aos corações dos açorianos. É minha esperança que os microrganismos também cheguem. Sei que não será tarefa fácil! O ser humano cria laços de empatia com o que vê e sente, por isso poucos têm, pelo menos conscientemente, um amigo micróbio de estimação. Cada microorganismo é muito pequeno e não é possível vê-lo a olho nu e só nos lembramos deles quando adoecemos. Estima-se que existam 1.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 espécies de microrganismos, das quais menos de 1% são conhecidas e caracterizadas. São os obreiros mistério e a essência da diversidade dos ecossistemas. Cerca de um micróbio em cada 100 pode ser causador de doenças. Que estão os outros 99 a fazer?
Os microrganismos são o grupo mais antigo e diverso da Terra. São responsáveis por alterações de grande escala transformando o planeta na casa que conhecemos hoje. Ironicamente, o Homem só surge após o enriquecimento da atmosfera em oxigénio, levado a cabo pelos nossos amigos micro. Em situações especiais desenvolvem comunidades quase exclusivamente microbianas, atingindo dimensões que os tornam visíveis ao olho humano. As nascentes termais ou mesmo os ambientes de caverna são um exemplo destes habitats. Sim, os alaranjados gelatinosos no tecto e paredes das grutas são uma marca de comunidades de microrganismos. Os amarelos, brancos alvos e verdes-escuros (entre outras cores do espectro) exibidos nas nascentes termais também são marcas de terreno de que esta é a casa de muitos microrganismos. Viram? A cara até não era estranha, não tínhamos era sido ainda apresentados!
Aposto que estão a pensar: óptimo, e daí? Em que é que isto contribui para a minha felicidade? Da próxima vez que beber a sua “fresquinha” (cerveja), que se deliciar com um iogurte, saborear os diversos queijos curados, comer aquele pão de trigo fofinho, ou até mesmo quando precisar de um antibiótico para combater os micróbios maus, lembre-se de pensar: - Obrigado meu amigo micróbio! Todas estas comodidades que temos como garantidas nem sempre existiram. A descoberta da penicilina influenciou fortemente o desenrolar da II Guerra Mundial. Uma fracção da diversidade microbiana é de facto de uma enorme importância histórica, económica, social e científica. Só agora é que estamos a descobrir o papel de muitos destes micróbios no ecossistema.
O termo correcto para a incorporação de actividades biológicas no quotidiano humano, de modo a melhorar a nossa qualidade de vida, é bioprospecção. Este é um processo antigo que tem adquirido uma nova dimensão nos anos mais recentes com a descoberta dos microrganismos extremófilos e com os avanços da tecnologia na área da farmacêutica, da biotecnologia e da indústria agro-pecuária.
Thermus aquaticus é um dos melhores embaixadores do mundo microbiano. Foi descoberto em 1966 numa nascente termal do Parque Nacional do Yellowstone, EUA, e é um termófilo (micróbio que gosta de calor). O cientista que o descobriu ficou fascinado pela sua capacidade de viver acima dos 70°C e nunca previu os restantes benefícios científicos e económicos que este pequeno micróbio iria trazer. Aliás, ninguém o podia imaginar! O facto é que uma simples molécula de Taq polimerase produzida por este micróbio gera anualmente cerca de 1000 milhões de dólares americanos. Qual a vantagem? Permite realizar “fotocópias” de porções de material genético num curto espaço de tempo. Aposto que está a pensar: - Os cientistas passam a vida a comprar esta molécula para gerar tanto dinheiro!? Sim, usamos, mas quem utiliza mais é você. Sem querer efectuar uma listagem exaustiva, o processo de “fotocópia” do material genético em si permite detectar genes específicos numa questão de horas, a partir de quantidades diminutas de material original. Para além de ser uma peça fundamental no desenvolvimento da investigação molecular, evolutiva e até mesmo arqueológica, permite ainda efectuar estudos forenses dentro da área da criminologia ou até mesmo testes de paternidade, diagnósticos pré-natal, detecção precoce de cancro e de várias doenças genéticas,  ou ainda de doenças infecciosas, entre outras. A rapidez e eficiência de muitos dos exames médicos e da prevenção de muitas doenças deve-se à utilização da molécula deste pequeno micróbio. É amigo ou não é, afinal?
São inúmeras as moléculas de microrganismos descobertas desde 1966 que levaram à melhoria da nossa qualidade de vida. O desenvolvimento da biotecnologia é extremamente importante para a economia local. O isolamento insular do arquipélago terá favorecido os seres capazes de se adaptar aos recursos insulares, o que por si só pode reflectir uma diversidade de modos de vida que se traduz numa diversidade de moléculas biológicas com potencial de aplicação em diferentes sectores do mercado. É provável que alguns destes “micróbios amigos” especiais habitem nas nascentes termais dos Açores, mas também poderão estar em ambientes marinhos não associados a nascentes termais ou ainda numa das várias cavernas e grutas do arquipélago. De facto, podem até estar no charco na pastagem ao lado da sua casa. Muita desta elevada diversidade microbiana está ainda por explorar, mesmo assim já existem patentes de algumas moléculas extraídas de microrganismos açorianos. O primeiro microorganismo com o genoma totalmente sequenciado em Portugal é um micróbio do domínio Bacteria, do grupo das Aquificales, e é das Furnas. Considerado um fóssil vivo, o seu genoma está a ser estudado há mais de 2 anos para perceber melhor como sobreviveu e se adaptou durante tantos anos neste planeta em constante mudança. Apostar na procura de novos microrganismos é procurar novas moléculas que podem permitir o desenvolvimento de novas linhas de processamento ou podem melhorar a eficiência das já existentes.
Como açoriana e como ecologista microbiana, penso que a aposta na biotecnologia é um passo em frente que pode trazer-nos muitos benefícios. Tenho assistido ao recente despertar de interesse para esta mais-valia biológica por parte dos governantes, pela restante comunidade científica açoriana e, mais importante ainda, pela nossa sociedade.
Penso que o mundo microbiano açoriano é uma mais-valia que nos pode beneficiar económica e cientificamente, mas é necessário compreender que a biotecnologia não gera lucro imediato e que é praticamente impossível apostar nesta área isoladamente sem parceiros de diferentes sectores, e mesmo internacionais. Entre a descoberta de uma biomolécula de interesse e a comercialização da mesma podem passar vários anos.
O potencial biológico açoriano é elevado mas o investimento na biotecnologia não deve descurar a aposta na investigação teórica fundamental de qualidade, na monitorização e na educação ambiental. Sem se saber o que lá está e o que faz não se chega às moléculas e uma sociedade informada participa e gera mais valor. Resta ainda recordar que é urgente criar medidas de gestão efectivas e eficientes, assim como legislação adequada.
É necessário que depois se passe do papel à acção para que a exploração deste bem, que é de todos, deixe frutos na Região e possa ser partilhado de forma durável pelas gerações vindouras.

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