Única sinagoga nos Açores reabre quinta-feira "totalmente recuperada"

Única sinagoga nos Açores reabre quinta-feira "totalmente recuperada"

 

Lusa/AO Online   Regional   21 de Abr de 2015, 09:52

A única sinagoga existente nos Açores, localizada em Ponta Delgada, reabre a 23 de abril "totalmente recuperada" para dar a conhecer o legado hebraico na região, um "ato simbólico e emotivo" para quem cuidou deste património durante décadas.

 

“A minha família foi a última guardiã da sinagoga durante 40 anos até este acordo ser feito [em 2009] entre a comunidade israelita de Lisboa e a Câmara Municipal de Ponta Delgada [por uma prazo de 99 anos]”, afirmou à Lusa o cofundador da Associação Cultural Amigos da Sinagoga de Ponta Delgada Jorge Delmar Soares, que não esconde a sua satisfação por ter sido possível recuperar o edifício.

Fundada em 1836, a sinagoga de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, está localizada na Rua do Brum, na baixa da cidade, num edifício que passa despercebido, já que, na altura em que foi construída, a legislação portuguesa proibia que os templos não católicos tivessem símbolos no exterior.

O imóvel estava votado ao abandono desde 1970, quando as duas últimas inquilinas, Raquel e Haliá Albo, morreram, mas mantinha no seu interior muito do espólio e objetos usados nas cerimónias religiosas e, já recuperados, voltam agora a ser expostos.

Jorge Delmar Soares salientou que há ainda várias peças da sinagoga de Ponta Delgada que continuam à guarda da comunidade israelita de Lisboa e que terão de voltar para os Açores.

“Por exemplo, há o quadro dos fundadores da sinagoga que não aparece e terá necessariamente de aparecer. Há outras torás pequenas que também ainda não vieram e que terão de vir”, disse o judeu que resgatou as peças e as enviou para Lisboa, quando o edifício em Ponta Delgada se começou a degradar.

Jorge Delmar Soares não tem dúvidas que a recuperação deste imóvel coloca Ponta Delgada numa rota mundial e atrairá muitos turistas, apesar de a sinagoga nunca ter verdadeiramente deixado de receber visitas durante os anos em que esteve em degradação.

A chegada aos Açores dos primeiros judeus originários de Marrocos data de 1819, quando rapidamente se instalaram e criaram os seus templos de culto por várias ilhas, como S. Miguel, Terceira e Faial, património que, entretanto, se perdeu.

A inauguração do mais antigo templo judaico português após a expulsão dos judeus de Portugal vai decorrer na quinta-feira, pelas 15:30 locais (mais uma hora no continente), com a presença de vários convidados nacionais e internacionais e “é o culminar de décadas de mobilização de esforços de várias entidades e personalidades nos Açores, no país e no estrangeiro”.

“A sinagoga é inaugurada na quinta-feira e já na sexta-feira, e no fim de semana irá estar aberta de forma que as pessoas possam visitar a sala de culto, o pequeno museu, a biblioteca”, afirmou o coordenador da sinagoga e presidente da associação dos amigos da sinagoga de Ponta Delgada, José de Almeida Mello, acrescentando que, nesta primeira fase, as visitas serão gratuitas.

Entre escadotes, aspiradores e fotografias antigas, José de Almeida Mello referiu que Ponta Delgada vai apresentar “ao país o seu legado hebraico totalmente recuperado”, destacando os cemitérios dos judeus em Santa Clara e Pico Salomão, bem como a sinagoga.

Segundo José de Almeida Mello, o próximo passo será concluir a identificação das casas dos judeus, as lojas e as restantes quatro sinagogas que chegaram a existir no centro de Ponta Delgada para se criar um roteiro hebraico na cidade, “permitindo dar a conhecer o legado dos judeus sefarditas que estiveram em Portugal durante mais de 1.000 anos”.

O projeto de arquitetura da reabilitada sinagoga de Ponta Delgada é de Igor França e o programa científico do espaço museológico foi entregue à historiadora Susana Goulart Costa, docente na Universidade dos Açores.

Além de Ponta Delgada e de Lisboa, Tomar e Castelo de Vide são cidades em Portugal que têm sinagogas.

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