Livro de estreia de Lara Costa

“Um dia acordei sem ti” no meio das lutas liberais

“Um dia acordei sem ti”  no meio das lutas liberais

 

João Rocha   Cultura e Social   16 de Mar de 2018, 20:00

Um romance que narra duas histórias de amor. Este é o fio condutor de “Um dia acordei sem ti”, que marca a estreia na escrita de Lara Costa, 37 anos, natural do Corpo Santo, Angra do Heroísmo.

No livro, a lançar a 25 de março, as lutas liberais marcam o compasso da história, com destaque para o famoso guerrilheiro “Boi Negro”.




“Um dia acordei sem ti” é o título do primeiro livro de Lara Costa. O que lhe fez despertar para a escrita?

Eu sempre gostei de escutar histórias. Depois de aprender a ler, ganhei o gosto pela leitura, que foi uma companheira regular durante a adolescência, assim como a largas horas na biblioteca da escola onde trabalhava a minha mãe. A escrita aparece naturalmente durante este processo. As possibilidades que uma história traz à nossa mente, são algo fantástico. Enquanto algumas pessoas se queixavam de ter de ler esta ou outra obra no ensino secundário, eu fi-lo com prazer. Adorei por exemplo “Os Maias”, de Eça de Queiroz, “A Aparição”, de Vergílio ferreira. Talvez, também com alguma influência do meu pai, que passava horas a escrever os seus versos, e escrevia ocasionalmente bailinhos de carnaval e danças de espada. Mas lembro-me com precisão, de quando senti vontade de escrever pela primeira vez. No dia que terminei a leitura do “Bonjour Tristesse” de Françoise Sagan. Despertou em mim uma vontade de criar, de escrever.

O seu romance leva-nos às lutas liberais. Qual a razão da escolha deste período histórico?

Eu não escolhi este período, ele surgiu porque umas das personagens em quem me inspirei, fazia parte dele. No entanto, é uma época que eu aprecio bastante, onde ainda podemos sentir o período do Romantismo. O valorizar das emoções, o amor platónico, o quebrar as regras, o lutar pela liberdade, pela igualdade. Um período rico na criação e que influenciou as artes de um modo geral, onde alguns poetas românticos abusavam das metáforas. E esta história é um pouco centrada no individuo, nas suas emoções, nos seus sentimentos, nas diferenças que acabavam por, às vezes, separar as pessoas. No fundo este livro é romance, que narra duas histórias de amor.

Há uma componente verídica/histórica no livro?

Existe uma pequena componente que pode ser verídica. É um dos capítulos mais importantes do livro, que tem a ver com a personagem principal masculina. Apenas este capítulo é baseado em bibliografia que surgiu e que falava sobre ele. A minha inspiração veio de algumas histórias que se contavam há algumas gerações na minha família paterna. Quando eu imaginava escrever sobre isso, não fazia ideia de que na realidade o individuo em questão havia existido. Só obtive esta confirmação numa das visitas ao Museu de Angra do Heroísmo, através de um desdobrável com o título: “Terceira Liberal”, que aliás tem neste momento uma nova edição muito interessante. Neste documento, existe um excerto sobre “ A fuga do guerrilheiro boi negro”, a quem atribuem o nome de João Cabral de Melo.

O meu trisavô era conhecido como o “José Boi Negro”; supostamente, e digo isto porque gosto de esclarecer que são apenas histórias de família, teríamos alguma relação com o guerrilheiro em questão. Assim, durante a infância, escutei algumas histórias sobre ele, quer episódios no porto das Pipas, ou no Pico da Galinha, no interior da ilha. Foi esta a informação que usei para criar a personagem masculina do livro. Toda a restante história é de ficção.

Qual foi o veículo narrador das façanhas de personagens como o guerrilheiro “Boi Negro”?

Eu criei uma personagem, baseada em várias informações. A nível físico tinha informação sobre a idade, a constituição física. Depois, baseada nas histórias que já conhecia e nas que consegui encontrar nas minhas pesquisas, consegui atribuir-lhe algumas características psicológicas, como um sentido de humor e um orgulho muito próprios. A partir daí soltei a imaginação e criei diversas situações e cenários onde ele interage com as outras personagens. Tentei mostrar dois lados de um jovem muito pobre, num tempo muito difícil. As histórias que me foram contadas, tinham sempre duas vertentes, uma em que ele era um ladrão, que teve várias vezes a cabeça a prémio, acusado de traição, e por outro, um ladrão que mesmo com cabeça a prémio ninguém o entregou à Capitania Geral. Um jovem que repartia o que roubava com algumas pessoas mais pobres que viviam à sua volta. Depois tentei também colocar-me na perspetiva dele, que razão teria ele para se juntar aquela causa, para defender o Infante D. Miguel? Assim foram surgindo as suas façanhas durante o romance.

A cidade de Angra do Heroísmo é inspiradora para romances literários?

Os Açores no seu global são inspiradores. Mas eu tenho um fascínio especial por Angra.

Posso dizer que nesta história a cidade é a minha musa inspiradora. Eu sempre olhei para ela com uma atenção especial. Os detalhes que podemos descobrir em cada rua, ao virar de uma esquina, numa varanda ou numa porta. É por isso que, na maioria das vezes, os locais inspiraram os momentos especiais de toda a história. Eu costumo dizer que em Angra respira-se história, o Heroísmo não está no seu nome à toa, e só por si seria motivo de inspiração. Quanto mais aprendemos sobre ela, sobre a sua história, as suas gentes, quanto mais passearmos pelas suas ruas, mais nos envolvemos e nos apaixonamos.

Por isso, claro que Angra do Heroísmo é fonte de inspiração, não só para romances literários, mas todas as artes.

Aparentemente, perdeu “o medo” de ousar escrever. Há outros livros em perspetiva?

Eu perdi o medo, porque aprendi com a vida a “fazer acontecer”. A perseguir os meus sonhos e a não deixar intimidar-me por uma sociedade que, às vezes, é um pouco cruel para quem ousa sonhar e concretizar os seus sonhos. Mas acredito vigorosamente que “ O Sonho Comanda a Vida”, e que uma vida sem sonhos para serem concretizados, é uma vida mais pobre e mais triste.

Perdi o medo, mas ganhei consciência de que escrever um livro é um processo difícil e que exige muito do seu autor. Entre aspetos como tempo, pesquisa, criatividade, emoções, tem também a questão do português, que não é uma língua muito fácil. Uma língua na qual preciso aprender mais, quero crescer e escrever o melhor possível.

Temos de aprender a conviver em sociedade e a pedir ajuda quando necessitamos dela, a estar igualmente disponíveis para ajudar quem nos procura. Eu pedi auxílio quando achei que necessitava e todas estas pessoas me receberam de braços abertos, apoiando-me e partilhando o seu conhecimento. Também procurei conhecimento, e a nível literário temos eventos extraordinários na Terceira, promovidos pela Reda. Um dos workshops que acompanhei, ajudou-me bastante no processo de escrita da história. É fulcral para mim sentir que estou numa viagem em que posso evoluir e dar sempre o meu melhor. Se tiver condições para que tal aconteça, tenho algumas ideias que gostaria de explorar, e quem sabe, avançar de facto para um próximo projecto.









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