Trabalhadores portugueses dizem "goodbye América" com sentido de "missão cumprida"

Trabalhadores portugueses dizem "goodbye América" com sentido de "missão cumprida"

 

Lusa/AO Online   Regional   24 de Set de 2015, 11:58

João Ormonde e Vitor Dias integram o segundo grupo de trabalhadores portugueses da base das Lajes, na ilha Terceira, que dizem "goodbye América" de forma voluntária, na sexta-feira, um dia emotivo com sentimento de "missão cumprida"

 

“Nem todos têm uma oportunidade destas, que é trabalhar na ilha Terceira, mas de certa forma dentro da América, ou seja, poder lidar com dois mundos distintos no mesmo dia. É muito interessante”, afirmou João Ormonde, que abandona a base após 34 anos de serviço com “nostalgia, mas também a convicção de missão cumprida”.

O primeiro grupo de trabalhadores portugueses a sair no âmbito da redução da presença norte-americana, cerca de 40 pessoas, despediu-se a 11 de setembro, após ter assinado rescisões por mútuo acordo. Agora saem mais cerca de 100 trabalhadores e até março de 2016 esse número deverá crescer, perfazendo um total de cerca de quatro centenas.

Entre os que aceitaram deixar a base estão muitos em idade de reforma e outros que, com 45 anos de idade, 15 de descontos e 10 de serviço, têm acesso a uma pensão extraordinária, até que atinjam a idade da reforma.

João Ormonde, antigo dirigente sindical e representante da comissão de trabalhadores portugueses na base durante oito anos, divididos em dois períodos distintos, assumiu que, se pudesse, “provavelmente não teria saído já”. Contudo, uma vez tomada a decisão, sai de “consciência tranquila” e “reconfortado pelas condições negociadas”.

“Esta experiência de 34 anos marcou-me, moldou-me, aprendi e apreendi modos diferentes, uma nova cultura que contribuiu para o meu pensamento”, referiu, apesar de recusar a ideia de ser um açoriano americanizado.

Reconhecendo que a base está “em mudança demasiado rápida e o futuro é bastante incerto para quem fica”, o antigo dirigente sindical não escondeu a sua preocupação com a perda de 400 postos de trabalho, nem afastou o cenário de ocorrerem futuros despedimentos residuais.

“Isso deixa-me naturalmente preocupado. Os trabalhadores da base das Lajes são responsáveis pela entrada de divisa estrangeira direta, limpa, nos Açores, num montante muito significativo. Neste sentido, perdendo 400 postos de trabalho, estamos a perder metade dessa receita”, afirmou João Ormonde, lançando um olhar saudoso através de um miradouro sobranceiro à base, na Praia da Vitória.

Também Vitor Dias, que trabalha na central elétrica norte-americana, termina esta sexta-feira 39 anos de serviço nas Lajes, apesar de considerar que, no seu caso, a saída voluntária foi “extremamente benéfica”, pois vai para casa com um rendimento mensal de 1.285 euros.

“Se ficasse mais um ano se calhar não trazia nada”, referiu, acrescentando que os americanos “estão a ser justos”, mas “mete dó saber o que foi esta base e como está agora”.

Atualmente, apontou, o hospital, a escola e várias habitações, entre outros serviços dentro da base, estão encerrados e também não há grande movimento rodoviário.

“O futuro pode ser bom, mas também pode ser mau. Prevê-se que talvez dentro de 10 a 15 anos esta base venha a ter a força que tinha. Agora não há nada”, sustentou Vitor Dias, que frequenta um café localizado paredes meias com a base.

A saída dos trabalhadores será feita de forma faseada, quinzenalmente, até março.

As rescisões por mútuo acordo já terão sido todas assinadas, apesar de a Comissão Representativa dos Trabalhadores (CRT) portugueses não saber ao certo se os 421 trabalhadores a quem foi proposto o acordo aceitaram assiná-lo.

O presidente da CRT referiu que entre os trabalhadores que agora saem existe um “sentimento agridoce”: “Sentem que é uma oportunidade que tiveram de agarrar, mas se não fossem forçados a fazê-lo sentiam-se bem e na sua maioria gostaram do seu empregador e, portanto, não têm grandes razões de queixa”.

Quanto aos trabalhadores que permanecem ao serviço dos americanos, “há ainda muitas incertezas” e, segundo Bruno Nogueira, o “grande desafio” agora será o preenchimento interno dos serviços que vão ficar vagos.


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