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Sossego e desemprego em Água Retorta mas sem abstenção

Sossego e desemprego em Água Retorta mas sem abstenção

 

Lusa/AO Online   Regional   12 de Out de 2016, 09:54

A poucos dias das eleições dos Açores, em Água Retorta, situada num vale e a uma longa hora e meia de Ponta Delgada, a campanha anunciou-se, mas os habitantes têm outras preocupações.

 

Alguns dos 433 eleitores que caminhavam de manhã nas ruas, quase todos disseram que vão votar no domingo, na Casa do Povo, e apesar de viverem distantes de Ponta Delgada não se queixavam do isolamento porque não trocam o sossego “por nada”. Outros, mais descrentes quanto à utilidade da ida às urnas reclamam por emprego que não há.

“Trabalhei uma vez só em toda a minha vida”, foi o ‘grito de revolta’ de Octávia Vieira, 33 anos, desempregada, mãe de três filhos, numa conversa de rua sobre as eleições de domingo. Ao lado, a amiga Marlene Costa, 35 anos, igualmente desempregada, com três filhos e grávida do quarto, sentenciou, resignada: “Os trabalhos são sempre para os mesmos”.

A questão do desemprego é explicada por outro morador enquanto caminha para casa. José Silva, 73 anos, 30 dos quais “passados na América”, resumiu assim a história das últimas décadas de Água Retorta: “havia umas 40 pessoas a viver da lavoura, tinham vacas, mas a fábrica de laticínios fechou há uns anos, agora só restam três ou quatro, os pequenos não se aguentaram, os terrenos estão todos para pastagem, é um desastre. Os mais novos recebem rendimento mínimo, mas aqui, para futuro, não há nada, os jovens querem fugir daqui”.

Mais à frente, junto ao edifício da Casa do Povo, de onde se avista o mar, de um lado, e do outro, se veem montes verdes, José Luis Medeiros, 56 anos, acha que os políticos se devem preocupar em “não deixar descair” o que já foi feito. “Manter as coisas assim”. A casa funerária era uma das necessidades mas já está construída.

José Luís Medeiros é o encarregado geral da Casa do Povo, edifício que alberga serviço de correios, posto médico, escola primária e multibanco.

Também sem reclamações a apresentar, Manuel Malaguião, 80 anos, de cigarro na mão e sentado na soleira da porta, disse: “voto sim senhor, os partidos nunca vêm aqui, só vêm nesta altura, mas temos ruas como precisamos e se precisarmos de alguma coisa vamos à Povoação [sede do concelho mais próximo, que dista 15 quilómetros de Água Retorta]”.

Pedro Canto, 39 anos, empregado da lavoura, disse que vai votar no domingo na Casa do Povo enquanto se ouve o som de um carro que passa com um hino partidário.

“A gente gosta de viver aqui, vive-se bem, fora de muitos barulhos”, afirma à Lusa enquanto voltava para a carrinha em direção ao campo.

Em Água Retorta há um café, um minimercado e uma serralharia, que emprega “cinco, seis, sete pessoas”, disse o proprietário, rejeitando “publicidade”. O negócio “não está muito bom, mas também não está muito mau” uma vez que não têm faltado encomendas do continente.

A única questão que coloca não é a do isolamento da localidade, cujo caminho até Povoação é feito de curvas sinuosas pelo interior dos montes, mas a da falta de mão-de-obra: “as pessoas não querem trabalhar e o Governo acostuma-as a não trabalhar, mandando-lhes um ordenado para a conta. Se preciso de uma pessoa, ela diz ‘não vou, já tenho um ordenado’”.

Quanto ao voto no domingo, o dono da serralharia disse que não ia contribuir para a abstenção.

Já Erica Borges, 18 anos, foi a exceção: “eu não sei de nada disso. Não sei, senhora. Não vejo notícias”.

Para a votação de dia 16 estão inscritos 228.160 eleitores que vão escolher os 57 deputados à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores para os próximos quatro anos.


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