Sociedade marginaliza amor entre os mais velhos

Sociedade marginaliza amor entre os mais velhos

 

Lusa/Açoriano Oriental   Nacional   13 de Fev de 2017, 10:03

Os idosos valorizam o sexo e as relações amorosas, mas o "erotismo no envelhecimento está fortemente ameaçado", porque a sociedade marginaliza o amor nessa idade, disse a investigadora Ana Carvalheira.

 

“Há uma série de mitos que ainda subsistem”, que faz com que as pessoas ainda tenham “atitudes muito negativas” em relação à sexualidade dos mais velhos, adiantou a professora e investigadora do ISPA – Instituto Universitário, na véspera de se assinalar o Dia dos Namorados.

Essas atitudes resultam do facto de a “nossa sociedade marginalizar as sexualidades não reprodutivas” e olhar para as “pessoas mais velhas” como se já não sentissem desejo, lamentou Ana Carvalheira.

Na sociedade atual, “o modelo dominante da sexualidade” é o da pessoa “jovem e bonita”, enquanto o envelhecimento é encarado como “um humilhante processo de desqualificação sexual, sobretudo para as mulheres”.

“O nosso corpo envelhece, a pele perde elasticidade, há uma série de mudanças biológicas que acontecem no nosso corpo e um corpo velho não é facilmente erotizado”, disse a investigadora, sublinhando que tanto os homens como as mulheres erotizam pessoas mais novas.

Mas os homens e mulheres “são seres sexuados até à morte” e é “preciso perceber que “a sexualidade é um caminho de descoberta até ao final da vida”, defendeu.

Há mentiras que se dizem como “os mais velhos não têm interesse sexual” ou “a capacidade sexual desaparece com a idade”, mas os estudos demonstram o contrário, referiu.

A este propósito, Ana Carvalheira lembrou um estudo que conduziu, com uma amostra de 750 homens e mulheres portugueses com mais de 65 anos, que revelou que, para a maioria dos inquiridos, a atividade sexual tem “alguma, muita ou muitíssima importância”.

Mostrou também que os homens dão mais importância ao sexo do que as mulheres, uma situação que se deve em muito a fatores demográficos.

“Há uma assimetria demográfica muito preocupante, porque há muito mais mulheres do que homens, há muito mais idosas do que idosos e há muito mais mulheres sem companheiro do que homens”, adiantou.

Segundo a investigadora, esta situação levanta muitos problemas. “É de uma desigualdade brutal”, disse, questionando: “Onde é que uma senhora com mais de 70 anos encontra um parceiro sexual?”.

Pode encontrar na internet, “mas isso é para quem tem internet”, frisou.

Para Ana Carvalheira, a “desqualificação sexual das pessoas mais velhas” também acontece porque “há uma perda da rede social, uma perda de poder económico e a reforma é muitas vezes vivida com dificuldade”.

Contudo, salientou, a “terceira parte da vida” é “um momento ‘desenvolvimental’ importante, como todos os outros ao longo da vida”, em que as pessoas podem “evoluir e fazer aprendizagens”.

Por outro lado, “vamos viver a sexualidade no final da nossa vida da mesma maneira que a vivemos ao longo da vida”.

“A sexualidade no final da vida é livre da contraceção, da reprodução, do stress profissional, do cuidar dos filhos e de todas as preocupações que os filhos trazem porque já foram embora, e pode ser um período da vida muito mais tranquilo que permita a descoberta de novas vivências eróticas e uma área de satisfação”, salientou.

Para Ana Carvalheira, é preciso que a sociedade perceba que “não é a idade que impede uma vivência feliz da sexualidade”, mas sim as doenças, os problemas de saúde e os tratamentos para essas doenças”, e deixe de “marginalizar os mais velhos”.

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