Sem-abrigos são recuperados em palacete do século XVIII que já encobriu criminosos

Sem-abrigos são recuperados em palacete do século XVIII que já encobriu criminosos

 

AO/Lusa   Nacional   24 de Jul de 2016, 15:06

O palacete que acolhe o projeto "Dar Sentido à Vida", que já recuperou 200 vítimas de exclusão social, é do século XVIII, tem origem religiosa, foi do Estado, ocupado no 25 de Abril e até encobriu atividade criminosa.

 

O número 37 da Rua das Virtudes, no Porto, tem uma história que precede a sua construção, encostado que está à muralha Fernandina que data do século XIV e da qual ainda guarda vestígios. A casa foi construída para recolhimento dos monges da Congregação da Ordem de São Bernardo, que por lá terão estado entre 70 e 80 anos.

O percurso histórico da casa foi relatado à agência Lusa por Luísa Neves, coordenadora do "Dar Sentido à Vida" da Serviços de Assistência Organizações de Maria (SAOM) e autora da pesquisa em torno do passado do edifício.

"Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, a casa passou para a Fazenda Pública, acabando vendida a José Alexandre Ferreira Brandão, um negociante que vendia vinho do Porto para o Brasil e que a tornou na sua residência familiar", disse.

Alguns dos melhoramentos então feitos ainda hoje são visíveis, com muitos trabalhos em gesso e tetos pintados com diferentes ilustrações. O negociante "mandou também fazer uma porta na muralha, tentando replicar a que teria sido a Porta das Virtudes, uma das 17 entradas da muralha Fernandina e que entretanto tinha sido destruída no séc. XVIII", prosseguiu.

Duas gerações volvidas e com os negócios em queda, a casa foi arrendada a partir de 1904 ao Oporto British Club, um dos dois clubes ingleses que existiam no Porto e que ali enquadrava as atividades da comunidade residente.

À época, esses clubes destinavam-se apenas aos homens mas, na casa, foi criada uma "Ladies Room", sala destinada exclusivamente ao convívio das senhoras inglesas. O clube ali permaneceu até 1967, altura em que mudou para as atuais instalações na Rua do Campo Alegre.

A casa ficou então abandonada uns anos e, na altura do 25 de Abril, "deu-se uma ocupação, típica do que foram os movimentos da época", contou a responsável, segundo a qual pouco depois ali se instalaram vários serviços, entre eles a Companhia de Teatro Pé de Vento.

"Uma oficina - escondida no jardim - que desmontava carros roubados em peças e depois as vendia em segunda mão e, no segundo andar da casa, ao que consta, uma casa de meninas", trouxe ao edifício, segundo Luísa Neves, uma característica "próxima de um centro de negócios, tal a sua versatilidade à época".

Em 1975, a Segurança Social adquiriu-a ao herdeiro de José Alexandre Ferreira Brandão e um ano depois deu-se o passo necessário para a instalação da SAOM.

"O Dr. João Rebello de Carvalho, um mecenas e homem muito voltado para o serviço público e social, fez um acordo de gestão com o Estado e instalou aqui aquilo que hoje somos, uma Instituição Particular de Solidariedade Social há 40 anos a prestar auxílio aos menos favorecidos da população", explicou.

E se no início os serviços prestados abrangiam dois grupos, "a infância e juventude e ainda a terceira idade" com o andar dos tempos as "necessidades foram mudando" e, tendo acabado "o apoio à juventude, abriu-se o grande projeto desta casa ‘Dar Sentido à Vida' de apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade social", explicou Luísa Neves.

 

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