Santos Ferreira começa a formar equipa no BCP

Santos Ferreira começa a formar equipa no BCP

 

Lusa/AO   Economia   26 de Dez de 2007, 05:07

O presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Carlos Santos Ferreira, apresenta hoje a sua demissão e começa logo a fazer os contactos para a lista candidata à liderança do BCP, confirmou à Lusa fonte próxima do banqueiro.
Santos Ferreira aceitou o convite para se candidatar à presidência do BCP assim que deixar a liderança da Caixa e tem "carta branca para escolher a equipa", de acordo com a mesma fonte.

    A possibilidade de Armando Vara, um dos administradores da CGD, acompanhar Carlos Santos Ferreira para o BCP, noticiada domingo pelo DN, provocou já protestos, mas a fonte próxima do ainda presidente do banco estatal contactada pela Lusa garante que não foram feitos até agora contactos para a futura administração do BCP.

    A demissão de Santos Ferreira da presidência da CGD surge depois de o seu nome ter obtido um apoio alargado entre os principais accionistas do banco, que sábado se reuniram num encontro promovido pelo presidente do conselho de administração da EDP - Energias de Portugal, António Mexia, e que durou cerca de três horas.

    Além do presidente da EDP, que detém cerca de 3 por cento do BCP, estiveram presentes na reunião o presidente da comissão executiva do BPI, Fernando Ulrich, que representa cerca de 8,8 por cento do banco, e Pedro Teixeira Duarte, que representa cerca de 6 por cento da instituição financeira.

    O investidor Joe Berardo, que detém cerca de 7 por cento do BCP, também esteve presente, assim como Moniz da Maia e Manuel Fino, que têm sido seus aliados na procura de alternativas para a gestão do banco.

    No final da reunião, Berardo afirmou que o resultado da reunião foi de "fumo branco", enquanto Ulrich concordava, em resposta aos jornalistas, que a crise tinha acabado.

    "Foram feitos progressos importantes", disse outro accionista, João Rendeiro, presidente do Banco Privado Português (BPP), indicando que deverá haver uma lista de consenso alargado para a gestão do banco.

    A crise no maior banco privado português agudizou-se sexta-feira, quando foi noticiado que o governador do Banco de Portugal desaconselhava a candidatura de Filipe Pinhal e Christopher de Beck à liderança do BCP, depois dos indícios encontrados nas investigações que tanto o regulador do sector bancário como a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) estão a fazer ao banco.

    Ainda a 21 de Dezembro, Vítor Constâncio reuniu-se com os principais accionistas do BCP e terá desaconselhado, também, que estes apoiassem elementos que integraram a gestão do banco nos últimos sete anos, já que os indícios de irregularidades remontam a 2000 e 2001.

    Em consequência, Pinhal e de Beck decidiram retirar a sua candidatura e grandes accionistas do banco, como a holandesa Eureko, que detém cerca de 7 por cento do capital, contactaram Santos Ferreira para este assumir a presidência do maior banco privado português, sucedendo a Filipe Pinhal.

    Santos Ferreira, que termina o seu mandato na CGD a 31 de Dezembro próximo, contactou o primeiro-ministro, José Sócrates, e o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, e fez saber que estaria disponível para liderar o BCP, desde que houvesse um forte apoio accionista.

    O apoio necessário a Santos Ferreira ficou definido a tempo de ser apresentada uma lista aos órgãos sociais do banco até 28 de Dezembro, para ser votada na assembleia geral de 15 de Janeiro.

    Em comunicado divulgado através da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o BCP revela que recebeu, a 21 de Dezembro, as conclusões preliminares das investigações que o regulador do mercado está a fazer sobre "diversas entidades sedeadas em jurisdições off-shore" que terão sido financiadas pelo banco para comprarem acções da própria instituição financeira.

    O banco presidido por Filipe Pinhal diz que não foi ouvido sobre as conclusões preliminares da CMVM e que não recebeu a informação em que o regulador se baseia para fazer as conclusões, reservando a sua resposta formal para outro momento do processo.

    No comunicado, o BCP responde já à CMVM sobre o efeito das perdas com estes empréstimos nas contas do banco, dizendo que foi tudo integrado.

    "O Banco Comercial Português confirma que a informação financeira por ele mais recentemente divulgada, nomeadamente a relativa ao período findo em 30 de Setembro de 2007, reflecte integralmente as perdas financeiras decorrentes da situação referida", refere o banco.

    Por imposição da CMVM, o banco divulga também a carta que recebeu do regulador do mercado de capitais em que este considera que o BCP financiou diversas sociedades off-shore para comprarem acções do próprio banco, de uma forma que fazia com que a instituição assumisse o risco dos negócios.

    Na carta, a CMVM refere que as sociedades off-shore referenciadas "constituíram carteiras de valores mobiliários - integrando quase exclusivamente acções do grupo BCP", com financiamentos obtidos junto do próprio banco, "não havendo, em regra, evidência de terem sido alimentadas para esse efeito por qualquer outra transferência significativa de entidade exterior ao Grupo".

    O regulador explica que "as condições dos financiamentos em apreço e o modo de governação das entidades em causa indiciam que o BCP assumiu todo o risco dessas entidades off-shore e que detinha poderes de domínio da vida e negócios dessas entidades", o que faz com que estas operações configurem, "de facto, o financiamento da aquisição de acções próprias, não reportadas como tal".

    "Esta configuração está também presente numa operação realizada com uma instituição financeira de que resultou a comunicação, por esta, de uma participação qualificada, tendo, todavia, o interesse económico permanecido no BCP bem como a possibilidade do exercício dos direitos de voto", acrescenta.

    Se o banco comprasse as suas próprias acções no mercado, isso afectaria os seus rácios de capital, enquanto se o fizesse através de empréstimos a terceiros, isso não aconteceria.

    Por isso, a instituição presidida por Carlos Tavares conclui que, "das circunstâncias descritas decorre que a informação prestada às autoridades e ao mercado, no passado, nem sempre foi completa e/ou verdadeira, designadamente no que diz respeito ao valor do capital próprio e aos detentores do mesmo".

    Acrescenta, ainda, que "foi detectada a realização de transacções de mercado pelas entidades referidas, em montantes e com frequência significativos, que carecem de análise aprofundada com vista a tipificar possíveis infracções às regras do mercado", pelo que o processo vai continuar.


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