Santa Maria, nos Açores, transforma-se na ilha dos festivais durante o verão

Santa Maria, nos Açores, transforma-se na ilha dos festivais durante o verão

 

LUSA/AO online   Cultura e Social   19 de Ago de 2015, 17:29

Entre junho e agosto, Santa Maria, nos Açores, transforma-se na ilha dos festivais, com música e músicos do mundo, uma marca cultural com influência norte-americana que se mantém com "esforço e tenacidade" local

Para além do emblemático Maré de Agosto, cuja 31.ª edição decorre de quinta-feira a sábado, o músico e agente cultural em Santa Maria João Pimentel destaca outros dois festivais mais recentes na ilha, um de blues e outro de folk, que “têm vindo a conquistar cada vez mais público, de ano para ano”.

“A influência dos americanos aqui [em Santa Maria] foi muito grande. Quando cá estava a força aérea americana, instalada na base, antes de passarem para a ilha Terceira, chegou a cá vir o Frank Sinatra atuar no cinema do aeroporto para os oficiais americanos. Tudo isso abriu os horizontes às pessoas que nem sabiam o que era uma televisão”, afirmou João Pimentel, um dos antigos organizadores do Festival Maré de Agosto, em declarações à agência Lusa.

Os militares norte-americanos chegaram a Santa Maria na década de 40 do século XX e ficaram até aos anos 60, quando a a base militar foi transferida para as Lajes, na Terceira. Durante esses anos, Santa Maria chegou a ter 12 mil habitantes; hoje tem pouco mais de 5.000.

“Foi Santa Maria que teve o primeiro cinema [nos Açores], os primeiros espetáculos. Passaram por cá o Cantinflas [humoristas mexicano], Amália Rodrigues, muita gente”, referiu João Pimentel, acrescentando que “o gosto eclético por música dos marienses se deve, com toda a certeza, a essa influência americana”.

Para o músico mariense, a realização anual de todos esses festivais deve-se, também, ao “esforço e tenacidade” dos marienses, já que “não é fácil pôr de pé eventos musicais" como aqueles que há na ilha, que está "longe de tudo”.

João Pimentel recordou que os primeiros organizadores do Maré de Agosto, o festival de música que há mais tempo se realiza em Portugal de forma ininterrupta, são filhos de pessoas que trabalharam para os americanos, que “beberam das suas influências musicais”.

“O meu pai é dos sócios fundadores da Maré. É o número dois. Eu desde os 16 anos que trabalho nesse festival. Já fiz de tudo. Só em várias direções estive entre 10 a 12 anos”, disse João Pimentel, que alegou não ser fácil realizar em Santa Maria um festival com a grandeza e logística que implica o Maré de Agosto.

“O Maré de Agosto, se fosse me S. Miguel ou na Terceira, era muito mais fácil a parte logística. Nós aqui temos de receber tudo de barco e avião. Tem de vir tudo de fora e isso não se faz só num mês. São muitos meses de trabalho”, referiu João Pimentel, acrescentando que, felizmente, o festival já ganhou nome e os artistas gostam de cá vir atuar.

João Pimentel recordou algumas histórias caricatas que viveu ao longo dos anos em que esteve ligado ao Maré de Agosto, como o facto de os Extreme terem tocado até às 7:20 da manhã e terem perdido o avião de regresso aos Estados Unidos da América ou a do filho do Sting, que “adorou a Praia Formosa e obrigou a organização a mudar a logística e ter de arranjar pizza para servir o jantar no local”.

O Festival de Música Tradicional Maia Folk, organizado pela Associação Amigos da Maia, teve em julho de 2015 a sua IX edição, apostando em sonoridades que retratam as origens, a memória viva, as vivências, a identidade de um povo, bem como os instrumentos e as sonoridades, transpondo-as para a contemporaneidade.

Já o festival Santa Maria Blues, que decorre anualmente em julho e que este ano assinalou a XII edição, é organizado pela Associação Escravos da Cadeinha e presta tributo a um estilo musical que nos EUA surgiu a partir dos cantos de fé religiosa e de outras formas similares, como os cânticos, gritos e canções de trabalho, cantados pelas comunidades dos escravos libertos.

Por os três festivais que se realizam anualmente na ilha, já passaram por Santa Maria, ao longo dos últimos 31 anos, milhares de músicos de vários estilos e origens, sendo que para muitos a sua estreia em Portugal ocorreu mesmo nos Açores.

João Pimentel assegurou que não seria viável, para já, realizar mais festivais noutras épocas do ano, já que “no inverno Santa Maria fica despida, pois só pessoas a estudar e trabalhar fora são milhares e os custos para trazer material para a ilha são insuportáveis”.

Além disso, João Pimentel criticou o facto de Santa Maria continuar a não ter um espaço de espetáculos fechado, com capacidade para 300 pessoas, que permitisse receber vários tipos de eventos culturais durante o ano, como pequenos concertos, beneficiando, assim, dos artistas que se deslocam à vizinha ilha de S. Miguel.

Em maio, o Governo dos Açores anunciou que o cinema construído pela Força Aérea norte-americana na ilha de Santa Maria durante a segunda guerra mundial vai ser recuperado e transformado num espaço polivalente de espetáculos e exposições, devendo as obras arrancar até ao final de 2016.

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