Como as tragédias mudaram a Proteção Civil nos Açores


 

Lusa/AO Online   Regional   30 de Out de 2017, 07:13

A tragédia da Ribeira Quente em 1997 e outras que lhe sucederam, como o sismo do Faial no ano seguinte ou a queda de um avião da transportadora SATA em 1999, obrigaram a repensar a Proteção Civil dos Açores.


“A Proteção Civil era praticamente inexistente do ponto de vista operacional, excetuando o labor próprio das associações de bombeiros que estavam indevidamente equipadas, indevidamente preparadas”, disse Carlos César em entrevista à agência Lusa a propósito da passagem dos 20 anos da tragédia da Ribeira Quente, que vitimou 29 pessoas.

No primeiro mandato, além desta tragédia, o Governo Regional teve de responder a cheias, nas Flores e em São Miguel, à “tempestade de mar” com “navios que foram projetados” para a avenida marginal de Ponta Delgada, ao sismo do Faial ou à queda de um avião da SATA em São Jorge.

“Este foi todo um tempo em que o grande problema, além dessa coincidência infeliz e quase contínua de incidentes, foi que houve simultaneamente a necessidade de olhar para o nosso sistema de Proteção Civil e perceber até onde ele servia e resolver também um problema que era um problema de consciência e de cultura de Proteção Civil que estava absolutamente ausente, desde a decisão política até à forma de desenvolvimento de algumas atividades económicas, até ao ambiente escolar”, adiantou.

Segundo o ex-governante, passou-se a “refletir a maior parte das decisões políticas e de organização dos sistemas públicos e da cooperação com os privados numa ótica de Proteção Civil no seu sentido mais lato e de resposta a situações de emergência”.

Carlos César descreveu que era um tempo em que os Açores “tinham grandes fragilidades no seu sistema rodoviário, tinham uma situação absolutamente gritante de indigência do ponto de vista habitacional”.

Acresce uma “situação de tensão conflitual e de competição detestável entre o governo regional e as Forças Armadas e as forças de segurança” que “obstaculizava uma intervenção séria e devidamente concatenada dessas forças em situações de emergência”, referiu.

“Foi preciso recomeçar de um ponto de vista do que é um sistema de Proteção Civil praticamente do zero”, afiançou, apontando a rede de comunicações, a forma de ocupação do território, as acessibilidades os equipamentos.

O antigo governante adiantou que durante os seus quatro mandatos à frente dos destinos do arquipélago foram investidos, por exemplo, “mais de 600 milhões de euros apenas na recuperação de infraestruturas atingidas por catástrofes”.

“Não houve durante os 16 anos em que estive no Governo um único ano em que não estivéssemos a investir na reabilitação de catástrofes. (…) Chegámos a ter 25% do orçamento de investimentos da Região Autónoma com muita frequência apenas centrado em catástrofes, o que nos roubou muitos recursos” para outros investimentos, notou.

Surgiu, também, uma nova rede de telecomunicações, alvo de várias renovações e atualizações, a última das quais já na governação do atual presidente do executivo regional, Vasco Cordeiro.

O Governo dos Açores acabou também por recusar o SIRESP - Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal.

De acordo com um documento do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores a que a Lusa teve acesso, após a instalação desta rede integrada de comunicações, foi possível constatar “vantagens” deste sistema face ao SIRESP.

Uma delas passa por “uma maior cobertura na rede, tendo mesmo ultrapassado os 95% de cobertura do território”, a que acresce “uma maior capacidade de assegurar o funcionamento dos repetidores com energia de emergência”.

“[…] Através das baterias e dos grupos geradores, permite um funcionamento autónomo e ininterruptamente por quase seis dias”, sendo que “o SIRESP está dimensionado para só trabalhar seis horas nesta situação”, refere o documento.

Por outro lado, a rede do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores (SRPCBA) possibilita “a interligação operacional direta e em tempo real de todos os utilizadores” da Proteção Civil “com outras entidades, nomeadamente com os meios da Marinha e da Força Aérea quando em operação”.




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