Ribeira Grande

“Ribeira Grande teve muita exposição mas foram quatro anos perdidos”

“Ribeira Grande teve muita exposição mas foram quatro anos perdidos”

 

Cristina Pires/Ana Carvalho Melo   Regional   17 de Set de 2017, 15:29

Fernando Sousa. Candidato do PS à Câmara da Ribeira Grande critica executivo camarário por não investir em infraestruturas para o futuro do concelho, sendo apologista da entrada paga em pontos turísticos como forma de contribuir para a sua preservação


Porque aceitou este desafio?
Eu aceitei este convite porque, à semelhança de muitos ribeira-grandenses, gosto muito do meu concelho e tenho estado ligado a causas públicas desde jovem. Em segundo lugar porque pretendo, juntamente com a minha equipa, trazer um verdadeiro desenvolvimento para a Ribeira Grande. Nós achamos que nos últimos quatro anos a Ribeira Grande teve essencialmente muita exposição mediática, mas do ponto de vista prático foram quatro anos que se perderam, uma vez que não se fizeram infraestruturas que ajudem e venham a salvaguardar o futuro da Ribeira Grande e dos ribeira-grandenses.

Acusou o executivo de Alexandre Gaudêncio de esconder o verdadeiro estado das contas da autarquia. De acordo com dados da câmara, a dívida reduziu para 10,7 milhões de euros. O que o preocupa?
Essencialmente, o modelo de gestão deste executivo, que transpôs a parte da despesa corrente para 54 por cento de todo o orçamento da câmara, quando anteriormente estes valores rondavam os 43 por cento, o que significa que não está a haver investimento no concelho, mas antes gasto. Essa situação preocupa-me porque não havendo investimento, não há retorno.

Fez parte do executivo camarário de Ricardo Silva, a dívida do município nessa altura não era uma preocupação?
Era, e tanto era, que era gerida com rigor e atenção. Aliás, o anterior presidente da câmara, Ricardo Silva, era conhecido por ser uma pessoa bastante assertiva com as contas, mas nunca deixou de fazer investimento na Ribeira Grande. Aliás, foram os dois mandatos em que houve mais investimento na Ribeira Grande, em questões muito importantes como infraestruturas de apoio a praias que hoje estão a ser muito importantes a nível do turismo e provas internacionais, e também na rede de águas.

Quando diz que nos últimos quatro anos não foi feito investimento, a que investimento se refere?
Temos um elemento muito importante no nosso concelho que é a frente mar e só agora é que se está a fazer a travessia da ribeira, com a qual concordo, mas não com a estrutura que se vai fazer por considerar ser do passado e que não se adequa a um passeio junto à costa.
No que diz respeito a apoio de praia temos uma das melhores praias da ilha, a Praia dos Moinhos, que continua com mau acesso e o estacionamento por resolver, nem se sabe se este executivo pretende que haja campismo ou não.
Outra situação é as Lombadas, onde havia um projeto de requalificação que também ficou esquecido nos últimos quatro anos.

Tem demonstrado preocupação com a questão do saneamento básico, acusando o atual executivo de desinvestimento. O que propõe fazer se for eleito?
O saneamento tem de ser sempre pensado como espinha dorsal e depois a periferia. O que pretendemos fazer é trabalhar na espinha dorsal da cidade e depois dar destino às águas residuais. Sei que há um estudo que prevê que as águas residuais vão para a ETAR de Santana, o que concordo.

Por que razão isso não foi feito entre 2009 e 2013, altura em que foi vereador na autarquia e responsável por esta área?
Entre 2009 e 2013 estávamos a acabar de concluir a rede de águas de Rabo de Peixe. Ou seja, tinha sido construída a ETAR e era preciso fazer a rede que leva as águas residuais até Rabo de Peixe. Não se podem fazer as coisas todas de uma vez só e o próximo passo seria a cidade, e inclusive tínhamos já em andamento um plano que definia que artérias seriam feitas em primeiro lugar.

Entre os projetos que idealizou para o concelho para implementar nos próximos quatro anos, está um apoio social a famílias carenciadas. Para que necessidades e com que valores?
Uma das nossas prioridades é a habitação social e degradada. Relativamente ao apoio social este executivo tem um orçamento de cerca de 75 mil euros, o que é manifestamente insuficiente. Decidimos que iríamos afetar para estas causas 600 mil euros, ou seja, 200 mil euros por ano para apoio no âmbito social, como necessidades primárias. No que diz respeito à habitação, o nosso parque urbano está cada vez mais degradado porque a crise afetou muitas pessoas que não conseguem fazer obras de reparação nas suas casas. Por isso, decidimos afetar 400 mil euros por ano para apoio à habitação degradada. (...)

Ainda no apoio social fala na necessidade de ampliar a rede de parcerias com as IPSS. Que tipo de parcerias e a que níveis?
Desde já uma maior proximidade. Verificamos que atualmente a câmara tem chamado a si todo o protagonismo na área das IPSS e de outras instituições, quando não é a câmara que desenvolve todos os dias um trabalho de grande mérito.
As parcerias que propomos passam pelo reforço financeiro a essas instituições, como também a nível técnico pretendemos reforçar a Divisão de Ação Social da câmara municipal para que tenha uma interação maior com as IPSS e, desta forma, as ajude no seu dia-a-dia.

Compromete-se também a intervir na prevenção de problemas sociais. Que problemas pretende evitar e que medidas quer pôr em prática?
Nos últimos quatro anos a toxicodependência parece que desapareceu da Ribeira Grande, mas isso não aconteceu. Desapareceu foi do trabalho diário que o município tem de fazer a esse nível.
Maus tratos infantis, maus tratos a idosos, toxicodependências, violência doméstica são temáticas que pretendemos trabalhar através do reforço de parcerias com entidades nas várias freguesias e reforçando com mais meios as diversas entidades. (...)

Que políticas tem para a juventude?
As políticas para a juventude estão distribuídas nos nossos sete eixos de ação. Pretendemos que os jovens, nomeadamente nas freguesias mais pequenas e mais afastadas do centro, tenham a possibilidade de adquirir habitação nas suas freguesias, através da isenção do IMI no período legal possível e de tarifas municipais.
A nível de emprego temos algumas medidas, mas essencialmente o que pretendemos é apoiar as empresas na criação de emprego. (...)

E para os idosos?
Pretendemos criar maior proximidade, apoiando as juntas de freguesia e as Casas do Povo que trabalham com idosos, mas também potenciando uma vigilância mais próxima do ponto de vista de saúde porque um dos nossos projetos é fazer com que haja mais médicos de família no nosso concelho.

Como irá cativar mais médicos de família para o concelho?
Há duas vertentes: a financeira no sentido de protocolar com o Governo alguns custos que tenha e criar incentivos para a fixação de médicos; e a nível de habitação, de apoio familiar, que permita escolherem a Ribeira Grande para trabalhar e viver.

Quantos médicos de família a Ribeira Grande precisa?
Neste momento, são cerca de nove.

Propõe transformar a Ribeira Grande na Capital de Turismo de Natureza. O que é preciso para que isso aconteça?
Temos uma série de potencialidades que pretendemos agregar para transformar o concelho na Capital de Turismo de Natureza, de forma a que os turistas que nos visitam tenham uma panóplia de ofertas que permitam que se sintam no meio da natureza.
Nos últimos anos, os Açores estão a usufruir deste crescimento do turismo e a Ribeira Grande está a viver o reflexo do resto do arquipélago, mas não têm sido criadas mais infraestruturas. (...) Pretendíamos, por exemplo, fazer que as pessoas descessem como um safari até às Lombadas criando alguns postos de trabalho e um centro interpretativo.

O BE denunciou a situação precária dos trabalhadores da Caldeira Velha. Esta situação preocupa-o?
Infelizmente, muitos trabalhadores da Câmara da Ribeira Grande estão em situação precária. O executivo anunciou 35 vagas, mas até agora não temos visto o resultado dos concursos. O nosso trabalho será fazer o possível para criar os postos de trabalho, de forma a que as pessoas fiquem estáveis e possam desenvolver um trabalho e formação de continuidade.

Como é que se poderá garantir um turismo sustentável e que não estrague a paisagem?
A peugada ambiental preocupa-nos e temos de trabalhar na prevenção. Começando pela Caldeira Velha, que os guias de turismo dizem já não ter o agrado que tinha, e por isso temos de criar regras e ter pessoas nos locais.
Eu sou apologista que, como acontece noutros locais, se comece a contribuir monetariamente para entrar ou passar em alguns locais como forma de os preservar, mas também de criar postos de trabalho. (...)

O atual executivo tem apostado no mar da Ribeira Grande. Se for eleito vai manter esta aposta ou vai voltar-se para o verde e para a paisagem?
A Ribeira Grande é esse misto, verde mais mar, quer seja o mar como potencial turístico quer do ponto de vista piscatório porque é o concelho onde está instalada a maior comunidade piscatória dos Açores. (...)
Virar a cidade para o mar é fazer a frente mar e dou um exemplo: no Monte Verde há uma zona onde não é necessário expropriar casas para se fazer obra e nem o projeto está feito. (...) Depois temos um Clube Naval no concelho que é o único clube que até agora a câmara nunca apoiou, com jovens atletas que trazem medalhas de ouro de concursos e que praticamente nunca são reconhecidos.
O que pretendemos, no âmbito da formação de jovens, é formar pessoas para o apoio às atividades do mar, nomeadamente a pesca turística.

O concelho está bem servido a nível de serviços de apoio ao turismo?
O concelho tem crescido e os empresários têm sabido aproveitar as oportunidades e têm tido a capacidade de se adaptarem rapidamente a esta nova realidade. Por isso, eu estou bastante convicto que a Ribeira Grande com os empresários que tem e se querem instalar, vai estar preparada para o fenómeno do turismo.

A área cultural é outra aposta da sua candidatura. Quais são as suas propostas?
O atual executivo já gastou perto de um milhão de euros em apoio a festas e festividades, dos quais cerca de 750 mil foram adjudicados a empresários fora da Ribeira Grande. Estas festividades têm-se desenvolvido apenas no largo do município e não se pode dizer que ajudam a economia local quando se restringem a um espaço.
A nossa ideia é criar um cartaz cultural que vai desde a Lomba de São Pedro às Calhetas de forma a darmos igualdade de oportunidades a toda a população e a todos os agentes económicos que temos no concelho.

Está confiante na sua eleição?
A cada dia que passa a confiança, minha e da equipa que me acompanha, é cada vez maior.


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