Restos de alimentação e fogueiras datam sítios arqueológicos em Portugal


 

Lusa / AO online   Nacional   15 de Dez de 2007, 10:57

O povoado pré-histórico de Leceia e a necrópole megalítica de Alcalar foram dois dos sítios arqueológicos que recorreram à datação por radiocarbono, uma técnica disponibilizada pelo Instituto Tecnológico e Nuclear (ITN) que também permite estudar as alterações climáticas.
    Leceia, no Concelho de Oeiras, é considerado um dos mais significativos povoados calcolíticos da Península Ibérica, e nele foram encontrados vestígios de moluscos, e a necrópole de Alcalar, no Concelho de Portimão, é um edifício tumular do terceiro milénio antes de Cristo.

    Segundo o investigador António Monge Soares, do ITN, no caso destes dois sítios arqueológicos a datação pelo teste de Carbono 14 fez-se através de amostras de natureza orgânica, como restos de alimentação ou vestígios de fogueiras, uma vez que a análise por radiocarbono permite datar materiais como carvões, ossos ou conchas com até 50 mil anos.

    No Laboratório de Radiocarbono do ITN, o teste de Carbono 14 já permitiu conhecer a idade de barcos afundados no Tejo, múmias egípcias e até de uma arca que terá viajado com Vasco da Gama para a Índia.

    "O teste não provou que a arca viajou com Vasco da Gama mas lá que o objecto é do tempo do navegador, isso sem dúvida", revelou António Monge Soares à agência Lusa.

    Segundo António Soares, os estudos sobre o menino do Lapedo - nome pelo qual ficaram conhecidos os restos ósseos de uma criança encontrados no Vale do Lapedo, perto de Leiria - também recorreram ao radiocarbono.

    Os principais utilizadores do teste de radiocarbono ou Carbono 14 são os arqueólogos, os geólogos e os oceanógrafos, tendo sido realizadas 2.310 análises desde o segundo semestre de 1986, quando o teste passou a poder ser feito no Instituto Tecnológico e Nuclear.

    "Antes disso era necessário enviar as amostras para o estrangeiro, pelo que, até 1986, só havia 64 casos de datação por Carbono 14 em Portugal", contou António Soares, acrescentando que a média anual de testes ronda os 150 nos últimos anos.

    "No ITN a amostra é convertida em benzeno mas existem técnicas que a transformam em dióxido de carbono ou em carbono elementar (grafite)", explicou ainda o investigador, que referiu também algumas aplicações do teste na Hidrologia Isotópica.

    No caso do aquífero cretácico de Aveiro, o Carbono 14 permitiu determinar a temperatura reinante durante o último máximo glaciar, ou seja, a última vez em que a Terra esteve quase toda coberta de gelo, há 18 mil anos.

    Áreas de estudo como a Paleoclimatologia ou a Paleoceanografia também podem beneficiar com o teste, como explicou o investigador, segundo quem, "através da realização da análise a conchas marinhas é possível determinar a variabilidade do afloramento costeiro ao longo do tempo".

    O afloramento costeiro é a vinda à superfície de águas profundas mais frias e mais deficientes em radiocarbono e, como a intensidade do afloramento depende do clima (mais especificamente do regime de ventos), ao determinar como é que esse afloramento variou ao longo do tempo, avaliam-se as alterações climáticas.

    A análise custa cerca de 300 euros por amostra mas os investigadores que desenvolvam trabalho no âmbito de projectos financiados, nomeadamente pelo Governo ou por autarquias, não têm de pagar este valor do seu bolso.

    Aliás, o ITN - que formou o Laboratório de Radiocarbono com subsídios do Instituto Português do Património Cultural (IPPC), do Museu Nacional de Arqueologia e da Agência Internacional de Energia Atómica - manteve, desde o primeiro governo de António Guterres, um protocolo com o Instituto Português de Arqueologia.

    Porém, segundo António Monge Soares, "este terminou há uns três ou quatro anos" e não foi renovado.
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