Vila Franca do Campo

“Restauração deixou-se degradar na qualidade de serviços”

“Restauração deixou-se degradar na qualidade de serviços”

 

Cristina Pires/ Ana Paula Fonseca   Regional   17 de Set de 2017, 15:55

Ricardo Rodrigues. Recandidata-se à Câmara de Vila Franca para terminar o seu projeto e deixar o município “tranquilo” aos vindouros. Atrair o turista, virar a vila para o mar e colocar o concelho de novo na rota dos bons restaurantes, são os seus projetos


Ricardo Rodrigues, atual presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, recandidata-se pelas cores do Partido Socialista. Porque se recandidata?
Na verdade, quatro anos não são suficientes para impor uma marca e, como sabemos, Vila Franca do Campo teve um passado difícil e, por isso mesmo, não estou satisfeito com o meu desempenho e vou tentar, nos próximos quatro anos, deixar uma marca distintiva da minha passagem por Vila Franca do Campo.

Já vamos falar dos desafios e dos projetos que tem para os próximos quatro anos com mais detalhe, antes pergunto-lhe com que dificuldades em concreto se deparou assim que assumiu o lugar de presidente da câmara?
Nós tínhamos uma câmara municipal, fruto de uma intervenção conjuntural, muito endividada. Nós constávamos no Anuário das Autarquias como a segunda câmara mais endividada do país, atendendo à receita e à dívida. Hoje, somos a quarta câmara mais endividada. Isto significa que tivemos de 2013 a 2017 pagar mais de 11 milhões de euros de dívida, o que nos trouxe alguma tranquilidade financeira, mas retirou manobra de ação, ou seja, um município que tem de receitas anuais à volta de 6,6 milhões, tirar disso para pagar esta quantia de dívida é ficar com muito pouco dinheiro para o dia a dia e fazer uma gestão que seja importante para quem vive em Vila Franca.

Qual é a dívida atual da autarquia, esta continua a ser uma preocupação?
Continua a ser uma preocupação. A dívida atual são 24 milhões de euros e está contratualizada com as entidades financeiras. Mas ainda há uma outra dívida que tem a ver com as empresas municipais e que ainda não está regularizada e esta ascende a mais de 16 milhões ou 17 milhões. Quando dizemos que somos a segunda câmara mais endividada do país não estão incluídos estes 16 milhões ou 17 milhões. Temos dinheiro para pagar todas as dívidas. Em 2010, por exemplo, pagávamos aos nossos fornecedores a 460 dias, ou seja, mais de um ano. Hoje, o prazo médio de pagamento é de um dia. Somos a quarta câmara do país a pagar aos seus fornecedores em melhores condições.

Como se chegou aí?
Foi um percurso de muito rigor. Tenho muita experiência de vários cargos que desempenhei, e tudo isto me deu o conhecimento necessário para por a casa em ordem e recuperarmos a credibilidade que a câmara municipal precisava de ter. (...) Isto foi possível com a colaboração de todos os funcionários da área financeira. Com a minha coordenação, atingimos este patamar de descanso e tranquilidade. (...)

Como tem sido, nestes últimos quatro anos, a relação com a banca?
Fui negociar diretamente com as instituições financeiras. Criamos credibilidade, porque a banca acreditou que o nosso projeto era viável, e mesmo das empresas municipais tenho tudo renegociado. (...) Esta é uma das razões por que me vou recandidatar. Esta parte [empresas municipais] ainda não está finalizada e quero deixar a tranquilidade total na Câmara Municipal de Vila Franca para quem vier a seguir não ter sobressaltos.
Nós tínhamos sete empresas municipais, todas elas muito endividadas. Hoje, também elas vivem com tranquilidade (…). Vão ser internalizadas. Ainda não foram porque não tenho o acordo do Tribunal de Contas e também porque o processo ainda não está em condições de ser apresentado. (...)

A câmara municipal recorreu ao Fundo de Apoio Municipal. Para que serve este fundo e em que medida constituiu um balão de oxigénio para a autarquia?
(...) Foi a solução possível encontrada (...). Foi uma solução conjuntural e tenderá a desaparecer com o tempo. Hoje em dia também não há maneira de sobre-endividar câmaras. A legislação não nos permite estas veleidades.
Não critico os meus antecessores. Cada um fez o melhor que sabia. A banca oferecia dinheiro. Há quinze anos atrás, a banca ia ter com as câmaras para emprestar: ‘temos aqui dinheiro. Não querem dinheiro?’ e, naturalmente, um autarca gosta de ver o melhor para a sua terra, mas esqueceu-se, um pouco, do futuro e daquilo que eram as consequências dos seus atos. Deixaram-se levar por este apetite voraz. Hoje em dia beneficiamos de algumas instalações que foram construídas, mas não precisavam de ser tantas, nem com a dimensão com que foram desenhadas para uma vila com 11 mil e 500 habitantes. A verdade é que estão lá e temos de as rentabilizar, e isto também faz parte do meu próximo mandato.

A situação financeira da câmara impediu-o de realizar alguns projetos. Quais são aqueles que transitam para o próximo mandato se for reeleito?
Em todo o caso, gostava de dizer que ainda assim, conseguimos fazer um investimento em obras no montante de 3 milhões e 173 mil euros e estão em curso 860 mil euros de obras, possíveis com fundos comunitários. Fizemos obras de relevante importância (…).O que falta fazer? A ideia que me faz também recandidatar tem a ver com o voltar ainda mais Vila Franca para o mar. Uma das obras já foi adjudicada. Vamos requalificar toda a frente marítima, não mexendo no sentido de alterar completamente a fisionomia que ela tinha, mas aproveitando, por exemplo, a proteção da orla costeira na Avenida Vasco da Silveira, junto ao cais, que estava a ser infra escavada pelo mar. Fizemos um quebra mar alongado e, por cima deste, faremos uma promenade que se vai estender desde a Avenida Vasco da Silveira até à praia Vinha d’Areia, onde será possível esta interligação entre o mar e os cidadãos. (…)

Em termos de financiamento, como vai avançar?
Está aprovada esta requalificação nos fundos comunitários. Estamos a discutir pormenores. (...)
Uma outra área que tem problemas é o Desporto e Juventude. Nós tínhamos um campo de jogos em Ponta Garça em muito mau estado. Foi construído há 12 anos e nunca teve uma obra de qualificação e benfeitoria. Neste momento estamos a colocar um relvado novo. No final deste ano, início do próximo, vamos requalificar o campo de jogos da Mãe de Deus, em Vila Franca. São dois campos de jogos para a juventude. Era uma área em que tínhamos dificuldades. Estou certo que vamos ter sucesso com estas duas obras de apoio à Juventude e ao Desporto.

Vila Franca sempre esteve na rota de quem visita São Miguel. Com um fluxo de turistas cada vez maior que partido tem tirado o concelho deste crescimento?
Tem tirado algum partido, porque temos o ilhéu de Vila Franca e temos boas praias. Precisamos de reter as pessoas em Vila Franca. Um dos projetos que está candidatado aos fundos comunitários tem a ver com o Roteiro das Olarias. Vila Franca tem uma tradição secular nas suas olarias. Nós temos três olarias que fazem parte deste roteiro e que precisam de ser requalificadas e um forno antigo de lenha onde se cozia o barro que será requalificado. Penso que é um projeto âncora porque hoje em dia há de facto um apetite extraordinário. Para o próximo mandato também há uma área que me parece que diferencia Vila Franca. Nós vamos apostar e fazer parcerias no sentido de recuperarmos a arqueologia. Vila Franca foi soterrada em 1522 e é uma área que hoje também tem alguma visibilidade. (...) Isto pode ser também um outro projeto âncora, o conhecermos o nosso passado. (...)

No que toca ao turismo e nos serviços de apoio ao setor, o concelho de Vila Franca está, no seu entender, bem servido?
A Marina de Vila Franca tem vários operadores na animação turística. Com a obra que o Governo Regional está a fazer de acesso ao porto vamos ficar muito qualificados. Eu também fiz obras de requalificação na marina (…) que deixou de ser um conjunto de cimento, betão e alcatrão. Mas ainda falhamos na restauração. Na Avenida Vasco da Silveira, vamos recuperar o barracão de peixe - uma obra do início do século passado, com uma fachada com características extraordinárias – para a área da restauração. Não para a câmara diretamente, mas para concessionarmos (...). Isto faz parte da requalificação da orla costeira. A minha ideia é não copiar mas fazer parecido com aqueles mercados que existem um pouco por todo o lado, com várias iguarias, e em que seja apetecível comer junto ao mar. Isto falha em Vila Franca do Campo que já foi muito conhecida pelos seus restaurantes e deixou-se degradar na qualidade de serviços. Hoje em dia, a gastronomia é um motivo de procura por parte de quem nos visita e de quem vive na ilha.

A falta de emprego é uma preocupação. O que tem feito para inverter esta realidade?
Este também foi o meu compromisso quando tomei posse. A Câmara Municipal de Vila Franca do Campo tem 102 trabalhadores efetivos. Nestes quatro anos acrescentamos 383. Foi possível dar salários e dignidade a outros tantos agregados familiares, e a pessoas que estavam desempregadas. Com a ajuda do Governo Regional e dos programas ocupacionais, nós tivemos ao nosso serviço mais 383 pessoas. Quadruplicamos o número de pessoas ao serviço da câmara. Muitos deles já têm o seu emprego nas mais diversas áreas. Neste momento só temos 130. (...)

Nos últimos quatro anos como foi a sua relação e do seu executivo com a oposição?
Ótima. A Vila Franca sempre foi muito crispada em termos do PS e PSD. Uma coisa que atingia as relações pessoais entre as pessoas. Hoje em dia não há nenhuma crispação. Está completamente ultrapassada. Tive essa função. Não me importo se é do PSD, PS, do CDS, ou se é comunista. Tratei todas as pessoas em igualdade de circunstâncias. Alguns deles até tinham relações pessoais difíceis e ficaram agilizadas por minha vontade e pela minha obstinação em pacificar as relações. Não olho a partidos políticos. É evidente que há uma altura própria e é a altura eleitoral. Uma vez eleito, sou o presidente dos vila-franquenses. (...)
Se vencer a Câmara e o Partido Socialista voltar a garantir a maioria das câmaras em São Miguel, está disponível para continuar à frente da Associação de Municípios?
Penso que sim, mas isso depende dos meus colegas que forem eleitos. Gostaria de terminar o projeto do Ecoparque da ilha de São Miguel e termos o tratamento dos resíduos completamente resolvido.


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