Raça do Ramo Grande mantém importância nas festas do Espírito Santo nos Açores

Raça do Ramo Grande mantém importância nas festas do Espírito Santo nos Açores

 

Lusa/AO Online   Regional   11 de Jun de 2017, 11:42

A raça do Ramo Grande continua a manter importância nos Açores, não apenas na agricultura, mas a nível cultural, nas festas do Espírito Santo, segundo João Sequeira, presidente da Associação de Criadores de Bovinos da Raça Ramo Grande.

“É uma tradição com muitos anos, se calhar com algumas pequenas modificações, mas as pessoas ainda tentam fazer aquilo que era tradicional, que é muito bonito”, adiantou, em declarações à agência Lusa.

As festas do Espírito Santo, que mantêm um grande peso cultural nas nove ilhas dos Açores, realizam-se de forma diferentes nas várias ilhas, variando até de freguesia para freguesia.

Na ilha de São Jorge, na freguesia dos Rosais, por exemplo, a festa não se realiza sem os bois do Ramo Grande, que transportam carros ornamentados, desfilando pelas ruas da localidade, nos dois bodos, que ocorrem nos domingos de Pentecostes e da Trindade (sétimo e oitavo depois da Páscoa).

Manda a tradição – que ainda se cumpre nos Rosais – que os carros sejam ornamentados no sábado e que, ao final do dia, integrem um cortejo até ao império, situado junto à igreja, onde são distribuídas esmolas (pão, carne e vinho) pela população da freguesia.

No domingo, os carros puxados por bois do Ramo Grande integram novamente o cortejo, que acompanha os símbolos do Espírito Santo (coroas, cetros e bandeiras) até à igreja, onde decorre a tradicional coroação (no final da missa, o padre coloca a coroa na cabeça de uma pessoa).

Atualmente, a presença da raça do Ramo Grande nestes cortejos tem um caráter sobretudo estético, mas inicialmente os carros de bois eram um meio de transporte e, nestes dias, carregavam nuns casos massa e queijo, noutros tremoços e vinho.

“Antigamente, os carros serviam para transporte. Coziam-se os tremoços na quinta-feira, iam-se por na água salgada e ao sábado de manhã eram transportados num carro destes para o império”, revelou João Sequeira, natural de S. Jorge.

Na freguesia dos Rosais, tradicionalmente são transportados dois carros, ornamentados de forma diferente do que se faz noutras localidades.

É colocada em cima dos carros de bois uma armação de madeira, que é totalmente coberta de verdura e decorada com flores naturais e flores feitas de papel de seda ou plástico fino, chamadas de ervilhas.

O carro leva 64 bandeiras e 84 arcos e os bois – “os maiores e mais bonitos” que os promotores da festa encontrarem – transportam nos cornos uma estrutura coberta de flores.

João Sequeira defende a preservação desta tradição e a criação de incentivos para os criadores dos animais que desfilam nos cortejos, alegando que há também um potencial turístico na continuidade destas festas identitárias dos Açores.

“Agora pelas festas do Espírito Santo e, como elas são mais altas este ano, há muitos turistas que vêm nestes dias e adoram isto. Tiram fotografias e param muito tempo a ver o sistema de ornamentação do carro”, salientou.

Segundo João Sequeira, há vários séculos que são utilizados os animais da raça do Ramo Grande nestas festividades, não apenas pela sua capacidade de transporte, mas por serem mais dóceis do que os de outras raças.

“São animais corpulentos, a cor da pele é diferente, o tamanho, os cornos são maiores. Em termos corporais é um pouco diferente dos outros. E, o que o distingue também, é que é um animal mais fácil de lidar para o ensinar e preparar para estes desfiles. São animais dóceis, diferentes dos outros”, salientou.

A raça do Ramo Grande, como é hoje conhecida, terá tido origem numa raça da Flandres, trazida para o Algarve e Alentejo e posteriormente para os Açores, pelos primeiros povoadores.

O nome atribuído é de uma das zonas da ilha Terceira em que a raça mais se desenvolveu, mas atualmente o maior efetivo está na ilha de São Jorge.

A raça tem já um livro genealógico e uma associação, decorrendo um processo de certificação da carne, mas chegou a correr o risco de desaparecer.

“Esta raça esteve quase extinta. Se não é meia dúzia de apaixonados por esta raça, tinha mesmo acabado”, frisou João Sequeira, adiantando que atualmente existem 2.252 animais em seis ilhas dos Açores.

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