Produtores querem maior valorização do vinho verdelho dos Biscoitos

Produtores querem maior valorização do vinho verdelho dos Biscoitos

 

Lusa/AO Online   Regional   27 de Abr de 2015, 13:16

Os produtores de vinho verdelho dos Biscoitos, na ilha Terceira, Açores, consideram aquele produto raro, merecendo ser valorizado e apoiado, tendo em conta que mais de metade da zona demarcada está abandonada.

"Este vinho já esteve em mesas de gente importante, como os papas, os reis de Inglaterra e até os czares da Rússia, mas tem de ser mais valorizado pela raridade da casta e pelo trabalho que ela requer", disse à agência Lusa Dimas Simas Lopes, produtor de verdelho.

Dimas Simas Lopes, cardiologista reformado, herdou uma vinha com 300 ou 400 anos, que o pai adquiriu nos anos 30 do século passado e, tal como outros produtores dos Biscoitos, continua a tradição familiar.

"Desde criança que fui habituado às adegas e às vinhas. Vinha vigiar melros para a vinha branca nas férias grandes da escola primária", disse.

Já José Manuel Cardoso, natural da ilha do Pico, não teve influência da família quando há 20 anos decidiu adquirir vinhas nos Biscoitos.

Dimas Simas Lopes já colocou o seu "Vinha Branca" em restaurantes em Lisboa e o "Quinta das Vinhas", de José Manuel Cardoso, recebeu uma medalha de prata, em 2008, num concurso regional de vinhos.

Atualmente, abastecem apenas o comércio local, pois não têm quantidade para exportar, mas garantem que não é um negócio que dê lucro.

"Dá trabalho e não é rentável. Só como ‘part-time' e por amor à camisola. Ganhar dinheiro, não se ganha", salientou José Manuel Cardoso.

Nos Biscoitos, existem muitos vitivinicultores, mas a maior parte são pequenos produtores - alguns apenas para consumo próprio - e mais de metade das vinhas está ao abandono.

José Manuel Cardoso estima que "talvez 75%" das vinhas esteja "por aproveitar" e Dimas Simas Lopes arrisca que só "10 a 15% da zona demarcada" está em laboração.

Com a vaga de emigração para os Estados Unidos e para o Canadá nas décadas de 1960 e 1970 e com a crescente procura de empregos na cidade, as vinhas foram ficando ao abandono e hoje são pouco atrativas.

A uva do vinho verdelho, de uma "casta nobre", cresce nos terrenos junto ao mar, em curraletas de pedra, o que torna impossível o uso de maquinaria no seu cultivo.

É preciso baixar a vinha para a proteger dos ventos, mas depois levantá-la para que respire e desfolhá-la para que seja exposta ao sol e haja uma boa maturação.

É "o mesmo que um rapaz novo ter uma namorada", segundo José Manuel Cardoso, que diz que a vinha dá trabalho todos os dias.

Para Dimas Simas Lopes, a vinha dos Biscoitos é "uma obra de arte feita pelo povo e será uma crueldade deixar que se perca o trabalho de 400 anos", defendendo que "tem de ser apoiada", antes que morra de vez.

O produtor considerou que o verdelho dos Biscoitos terá de se afirmar pela qualidade e não pela quantidade, porque é um vinho para apreciadores.

"É um vinho que tem uma personalidade própria. É um vinho raro, que varia de ano para ano, porque o clima varia de ano para ano. É um vinho feito de mar, de sol, de pedra, de trabalho", frisou.

Dimas Simas Lopes lamentou que haja um "divórcio" entre produtores de vinho e consumidores nos Açores, maioritariamente por falta de conhecimento.

"O que é mais triste aqui nas ilhas é que, muitas vezes, o vinho que é feito no Pico, na Graciosa e nos Biscoitos, nem à mesa dos restaurantes dessas ilhas está", salientou.

Foi para tentar valorizar o vinho dos Biscoitos e dá-lo a conhecer à população da ilha Terceira, que dois jovens começaram a organizar, este ano, rotas pelas adegas, com provas de vinhos e convívio entre produtores e consumidores.

"Ainda há muito desconhecimento na população local da cultura da vinha e do vinho dos Biscoitos. Há pessoal que ficou realmente surpreendido, porque desconhecia as vinhas, os percursos que existiam no meio das vinhas, o trabalho que dá cultivar nestes terrenos", salientou Steven Almeida.

Diogo Costa é um produtor "embrionário", que comprou uma pequena vinha perto de casa como passatempo. Steven Almeida é filho de um produtor e aprendeu a fazer vinho ainda no Canadá, onde o pai transformava a cave em adega, utilizando uvas compradas nos Estados Unidos.

Ainda que reconheçam que a mão-de-obra necessária para manter uma vinha é "muito dispendiosa" e que o preço cobrado pelo vinho "não compensa o trabalho de um ano", acreditam que há cada vez mais jovens interessados em recuperar as vinhas abandonadas.

"Agora existe uma série de apoios para manutenção de vinhas e para criação de projetos para requalificação de vinhas que estão perdidas e [os mais novos] já começam, se calhar, a encarar isto como uma oportunidade de negócio", salientou Diogo Costa.

 


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