Produtores dos Açores recebem menos 2.100 euros mensais com fim das quotas leiteiras


 

Lusa/AO Online   Regional   30 de Mar de 2016, 10:20

Os produtores dos Açores que entregavam em fábrica 600 litros de leite por dia, em 2014, estão a perder com o fim das quotas cerca de 2.100 euros por mês, havendo quem pondere abandonar o setor.

“Cada dia que passa é de prejuízo para os produtores. Em novembro de 2014, quem tirava 600 litros de leite está a perder agora 60 a 70 euros por dia”, afirmou à agência Lusa Filipe Cabral, um dos responsáveis por um posto de recolha de leite de uma unidade fabril no concelho de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel.

Nos Açores existem na fileira do leite 2.132 produtores, cerca de metade na ilha de São Miguel (1.158), representando o setor 30% do total da matéria-prima produzida a nível nacional.

Filipe Cabral declarou que estão a entrar diariamente cerca de 100 mil litros de leite naquele posto de recolha, valor inferior ao registado antes do fim das quotas, a 01 de abril de 2015, e acrescentou ser confrontado diariamente com a “aflição” dos produtores.

Jorge Sousa, de 46 anos, que possui 30 cabeças de gado, garantiu existirem inúmeros produtores a passar por “momentos difíceis” nos Açores, admitindo que “muitos colegas vão ter que abandonar o setor”.

O produtor, que herdou a sua exploração do pai e está no setor desde 1990, disse que “os pequenos estão a ser penalizados porque não têm capacidade de competir” num mercado aberto com os “grandes da Europa”.

“Com as quotas leiteiras cada um sabia o que produzir”, salientou Jorge Sousa, acentuando que “a margem líquida das explorações está a desvanecer”, sendo necessário “fazer uma grande ginástica”.

Jorge Sousa acredita que muitos produtores vão aderir à iniciativa do Governo dos Açores que prevê uma compensação financeira para quem a abandonar a produção, subscrevendo esta oportunidade dada ao setor.

O jovem Ricardo Cabral, que trabalha para um produtor que possui 27 vacas, expressa preocupação porque aquele pode não ter capacidade para “segurar a lavoura” com o preço do leite a “descer desta maneira”. Por isso, teme pelo seu posto de trabalho e agregado familiar, com dois filhos.

Eduardo Silva, de 66 anos, há 40 no setor leiteiro, detentor de 20 cabeças de gado, garantiu que “estão todos preocupados” com o fim das quotas, enquanto Armindo Martins, de 55 anos, e que começou há 28 anos na profissão com o pai, está a ponderar aproveitar as medidas do executivo açoriano para se reformar.

Valter Melo, na casa dos 40 anos, possui 210 vacas na freguesia das Feteiras, concelho de Ponta Delgada, e tem seis trabalhadores a seu cargo, todos eles com famílias. Admite “grandes dificuldades” na fileira devido à baixa do preço do leite, que foi “muito substancial”.

O produtor recorda que o preço do leite à produção, por litro, antes do fim do regime de quotas era de 35 cêntimos, situando-se hoje em cerca de 27,28 cêntimos.

“Com os limites de produção por parte da indústria muitos produtores correm o risco de fechar. O saldo de tesouraria é negativo. As pessoas têm os seus compromissos para pagar e o dinheiro não chega para os encargos”, declarou Valter Melo.

Quando as medidas para o setor surgirem, anteviu, “muitas explorações já fecharam”.



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