Privatizações: Alienações fazem sentido mas há falta de estratégia - economistas

Privatizações: Alienações fazem sentido mas há falta de estratégia - economistas

 

lusa   Economia   20 de Mar de 2010, 12:59

As privatizações prevista no PEC servem apenas para suprir as dificuldades nas finanças públicas, disseram à agência Lusa diversos economistas, que, mesmo considerando que a medida faz sentido, afirmam que a saída do Estado deixa as empresas portuguesas mais vulneráveis.

Eduardo Catroga, em declarações à Lusa, considerou que algumas das privatizações que o Governo apresenta no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) fazem "todo o sentido económico", mas realçou que outras "devem ser ponderadas, como as participações que restam ao Estado no sector energético que, ainda que minoritárias, são fundamentais para criação de um núcleo português, estável, nessas empresas".

"O Estado vai diminuir a influência, o que é positivo porque os partidos políticos (…) normalmente são pouco inteligentes na utilização do poder acionista, mas vai contribuir, se não houver cuidado, para que o país fique sem as empresas nucleares", acrescentou Eduardo Catroga.

"Neste grupo de privatizações deveria haver uma escolha estratégica, em funções de objetivos estratégicos para a economia portuguesa, que não existem", disse ainda o antigo ministro das Finanças durante o Governo de Cavaco Silva.

João César das Neves, da Universidade Católica, lamenta também o que considera ser a falta de estratégia na opção que, em teoria, refere, nem sequer dá acesso a mais receitas.

"É um truque que no passado se usou com razões económicas - porque o Estado tinha coisas que não devia ter e queria liberalizar a economia - e, neste momento, por razões meramente financeiras", afirmou.

Dada a situação, das finanças públicas, diz César das Neves "uma abordagem em várias frentes, entre elas as privatizações, é uma coisa razoável [mas] era melhor que [as finanças públicas] tivessem sido preparadas com antecedência".

Nuno Teles, economista da Universidade de Londres, considera que o Estado não deveria reduzir a presença nas empresas, que permitiu reforçar, afirma, as defesas portuguesas na atual crise financeira.

"O setor público foi muito importante para salvar o sistema financeiro. A nacionalização do banco BPN, por exemplo, foi feita pela Caixa Geral de Depósitos. E agora vamos entregar parte dos seguros da Caixa ao mesmo sistema, que falhou completamente", afirmou o economista, que disse mesmo estar "chocado" com a decisão.

A venda de participações, acrescenta, nem sequer é um bom negócio, porque o Estado perde os lucros correspondentes às posições acionistas e, ao sair das empresas, perde "instrumentos importantes para a reconversão do aparelho produtivo nacional".

Para José Reis, da Universidade de Coimbra, a venda das participações estatais vem demonstrar que as lições da crise económica começam a ser desprezadas.

"Toda a gente fez o diagnóstico que havia excesso de mercado (…) toda a gente prometeu mais regulação, mas não só essa regulação não acontece como afinal se desequilibrou a favor do tal excesso negativo", afirmou.

"O Estado serviu como bombeiro e, agora, não só não o tratamos já sequer como bombeiro, ainda o tratamos mal como bombeiro", conclui José Reis.


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