Primeiro computador português de investigação 'dorme' num sotão privado em Angra

Primeiro computador português de investigação 'dorme' num sotão privado em Angra

 

Lusa/AO Online   Regional   4 de Set de 2010, 10:07

O primeiro computador português de investigação de nova geração, tal como o caracol, andou de toca em toca até ‘adormecer’ no sótão privado de um professor universitário dos Açores, que o tem preservado.

“É o modelo PDP 11, de tecnologia norte-americana, com uma disquete com 246K de memória, que foi para a Universidade de Coimbra em 1974 e que, no início dos anos 80, estando destinado à sucata, eu trouxe para Angra do Heroísmo”, revelou Félix Rodrigues, em declarações à Lusa.

Este professor de física, matemática e ambiente do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores confessou ser amante “de velharias”, desde que sejam “passado, mas com significado para compreender o presente”.

“No âmbito da cooperação entre as duas universidades consegui que [o computador] viesse para a universidade açoriana e ali trabalhou três ou quatro anos mas depois, também devido à evolução tecnológica, o seu futuro era a lixeira”, recordou.

Nessa altura, Félix Rodrigues tentou que “fosse colocado no Museu da Ciência da Universidade dos Açores ou no Museu de Angra do Heroísmo”, mas a ideia não teve acolhimento, pelo que o computador “parou no sótão” da sua casa.

“Apesar dos protestos familiares, não o deito fora porque é um bem histórico”, frisou o docente e investigador universitário, embora esteja consciente que “não é o local apropriado” para o computador.

Ao primeiro olhar, parece um camiseiro, apenas o ecrã deixa entender, ainda que vagamente, que o aparelho tem outras funções.

Analisar e descrever este computador “é fazer a história da evolução da tecnologia, que deu passos de gigante ao longo de uma década, mais do que nos 10 séculos anteriores”, afirmou Félix Rodrigues.

“A maioria dos jovens que hoje lidam com um PC de secretária e uma ‘pen drive’ não faz ideia nenhuma da história que está por trás dos computadores, incluindo a espionagem industrial”, frisou o professor universitário açoriano.

Félix Rodrigues recordou, a este propósito, notícias que “davam conta de que a ex-União Soviética se apropriara dos esquemas do computador e começara a fabricar clones”.

“Este modelo, o mais avançado da alta tecnologia norte-americana da época, eficaz em controlo de redes e investigação científica, custava a módica quantia de 650 mil dólares, qualquer coisa como 512 mil euros atualmente”, salientou Félix Rodrigues.

A disquete utilizada neste computador podia armazenar uma tese universitária com 1000 páginas, mas com poucos gráficos e fotografias, mas já não gravaria uma fotografia atual de alta definição.

Hoje, o corpo principal deste computador repousa no canto de um sótão na ilha Terceira, suportando, como se de guardas se tratassem, molduras fotográficas e a disquete do tamanho da roda de um automóvel.


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