Preços das casas afasta lusodescendentes do "Little Portugal" de Toronto, no Canadá

Preços das casas afasta lusodescendentes do "Little Portugal" de Toronto, no Canadá

 

Lusa/AO Online   Economia   29 de Dez de 2014, 07:39

O elevado preço das casas no "Little Portugal", em Toronto, na província canadiana do Ontário, é uma das razões que tem conduzido à diminuição da presença portuguesa naquela zona, disse à agência Lusa um especialista do setor imobiliário.

 

Lino Pereira, 65 anos, agente licenciado da Remax desde 1980, disse que os preços das habitações na Dundas Street West na década de 1980 tinham preços mais acessíveis, "mas hoje há casas que ultrapassam o valor de um milhão de dólares" canadianos (cerca de 700 mil euros). 

"Recordo-me, quando comecei (no setor imobiliário) em 1980 vendiam-se propriedades muito baratas, hoje em dia custam um milhão. Antigamente os valores rondavam uns 40 mil dólares" canadianos (28 mil euros), salientou.

O agente imobiliário recordou que há 40 anos se compravam casas de dois pisos por 50 mil dólares canadianos, agora o preço ronda os 850 mil dólares, com o imobiliário a ter altos e baixos, mas desde há 15 aos que não parou de subir.

Atualmente, os portugueses que estão à pouco tempo no Canadá "já não conseguem" comprar uma casa, "a não ser que tenham muito dinheiro", notou.

Lino Pereira também explicou que a área do 'Little Portugal' junto ao Bell Woods Park é uma das "mais caras" da baixa de Toronto, hoje muito procurada por cidadãos de origem anglo-saxónica, como médicos, advogados, juízes ou trabalhadores do setor financeiro, que trabalham no centro da cidade, mas que utilizam frequentemente os transportes públicos.

"Como tudo na vida há muitas metamorfoses e a nossa comunidade não fugiu como sucedeu com outras etnias. Ficaram os mais idosos, porque os hospitais, as farmácias, os médicos e o comércio tradicional continuaram localizados nesta zona. Os mais novos mudaram-se para fora da cidade, para zonas mais verdes, com mais espaços para criarem as famílias", disse.

Uma justificação em que o gerente do balcão do Banco de Montreal (BMO) situado no coração do 'Little Portugal' partilha.

"Há muitos portugueses na área, que se instalarem na zona envolvente à Dundas Street West há 30 ou 40 anos, que venderam as suas propriedades e depois mudarem-se para outras áreas de Toronto com preços mais acessíveis", explicou Vítor Vitorino, 36 anos.

O bancário destacou ainda que os 19 colaboradores daquele balcão "são todos portugueses ou lusodescendentes", contando aquela filial do banco com cerca de 10 mil clientes, dos quais 80% são portugueses.

"Muitos emigrantes vêm cá porque sabem que somos o banco da comunidade portuguesa, porque estamos localizados no coração da comunidade portuguesa, na Dundas e Ossington", afirmou.

Vítor Vitorino, emigrante no Canadá desde 1985, orgulha-se de ser português e de poder ajudar a comunidade portuguesa.

O letreiro do balcão do Banco de Montreal na Dundas Street West está escrito em língua portuguesa por estar localizado no 'Little Portugal' e de a maioria dos clientes serem portugueses".

Ao lado do BMO, localiza-se o escritório do primeiro português a formar-se em Direito no Canadá.

Fernando Dias Costa, 68 anos, é primo do secretário-geral do PS, António Costa, e tem escritório no 'Little Portugal' desde 1977.

"Fui o primeiro português a formar-me em Direito no Canadá. Em 1977 abri o cartório nesta área (Dundas). Fui um dos fundadores da Federação de Empresários e Profissionais Luso-canadianos e antigamente havia um número reduzido de portugueses nos vários setores de atividade, mas a comunidade está muito mais integrada", afirmou.

Fernando Costa recordou que os portugueses começaram por se estabelecer na rua Augusta, mas hoje existem lá apenas "dois ou três" negócios lusos. A comunidade optou por se deslocar para a Dundas, uma área que antigamente "era completamente portuguesa", mas onde atualmente já se vivem pessoas de outras nacionalidades.

"A nossa comunidade tem progredido mais para norte, para ruas como a College, Bloor e Saint Claire. Estamos a estabelecermo-nos mais para norte, já não há aquela concentração numa área como havia antigamente", salientou.

Muitos portugueses ainda vão à Dundas às compras, mas têm problema da falta de estacionamento, daí que haja uma tendência para outros locais com maior acessibilidade, explicou.

Em termos de futuro, o advogado gostava que o governo português apostasse mais na área cultural através da "preservação da língua portuguesa", pois quando se deixa de falar português "também se perde a cultura".

O 'Little Portugal' localiza-se na Dundas Street West, entre as ruas Bathurst e Dufferin, onde continua a residir uma grande comunidade portuguesa.

Uma parte daquela área está incluída no círculo eleitoral da Davenport, que reelegeu recentemente a vereadora Ana Bailão (Bairro 18) e nas eleições provinciais do passado verão, em que elegeu a deputada Cristina Martins.

Calcula-se que existam no Canadá cerca de 550 mil portugueses e lusodescendentes, estando a grande maioria localizada na província do Ontário.


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