Portugueses na Alemanha solidários e preocupados com crise dos refugiados


 

Lusa/AO Online   Internacional   18 de Abr de 2016, 08:44

Distribuir refeições, selecionar vestuário, organizar atividades desportivas ou até decorar bolos de aniversário são algumas das tarefas que Inês Thomas de Almeida, tal como muitos voluntários em Berlim, faz semanalmente num campo de acolhimento a refugiados na capital alemã.

 

"Uma vez perguntámos a um miúdo o que é que ele queria de prenda de aniversário. Ele disse que o sonho dele era ter um bolo de chocolate. O miúdo ia fazer 13 anos e fez-se um bolo enorme", contou a portuguesa à agência Lusa em Berlim.

Inês de Almeida referiu que o empenho da sociedade civil na capital alemã "tem sido fundamental para acolher os refugiados e lidar com este problema", lamentando alguns casos de radicalismo e escalada de violência contra os migrantes na Alemanha.

"A rejeição vem do medo que as pessoas têm do outro, da pessoa que é diferente. Todo este movimento enorme que existe na Alemanha trata-se de superar os medos do outro", referiu a portuguesa que vive em Berlim há mais de dez anos, concluindo que "devemos é ajudar".

Vânia Batalha também considera fundamental o trabalho dos voluntários no acolhimento dos refugiados, referindo que "temos de mostrar-lhes que podem ser integrados, que podem viver nesta sociedade. Nós queremos que gostem da nossa cultura e do nosso país".

A voluntária portuguesa acrescentou que evoluiu "gigantescamente por estar a viver a realidade dos refugiados", garantindo que leva para casa "uma vontade muito grande de tentar minimizar ao máximo o trauma que estas pessoas trazem".

A crise dos refugidos tem levado vários portugueses a fazer voluntariado nos campos de receção aos migrantes mas alguns membros da comunidade portuguesa na Alemanha receiam que a entrada de milhares de requerentes de asilo resulte em falta de emprego e insegurança.

José Loureiro, conselheiro das Comunidades Portuguesas na Alemanha, referiu que a crise dos refugiados é um assunto "muito delicado" para a comunidade portuguesa em Estugarda, acrescentado que "as pessoas pensam que o seu posto de trabalho estará em causa e receiam pela segurança civil".

O conselheiro disse que alguns portugueses "transmitem a ideia de que os refugiados são pessoas complicadas, conflituosas e indigentes", mencionando que "sentem que os refugiados têm uma posição privilegiada em relação a eles, que já trabalham aqui há largos anos".

Alfredo Stoffel, conselheiro das Comunidades Portuguesas pelo círculo norte da Alemanha, disse que "o receio da população portuguesa não é diferente do receio da população alemã", complementando que a desunião das principais forças políticas alemãs tem fomentado o crescimento de "partidos xenófobos como o AfD [Alternativa para a Alemanha] e o NPD [Partido Nacional Democrático da Alemanha], que com uma conversa muito fácil atingem o medo das pessoas".

Stoffel assinalou que o discurso nacionalista contra os refugiados na Alemanha assemelha-se às críticas que se verificaram relativamente à vaga de jovens profissionais provenientes do sul da Europa "que vieram destabilizaram algumas regiões, porque eram mão-de-obra mais barata e as pessoas tinham medo que viessem tirar trabalho".

De acordo com dados do Serviço Federal para as Migrações e Refugiado, mais de um milhão de requerentes de asilo registaram-se na Alemanha em 2015, e cerca de 150 mil nos meses de janeiro e fevereiro de 2016. A maioria dos migrantes é proveniente da Síria, Afeganistão, Iraque, Albânia e Kosovo.

 

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
 
Termos e Condições de Uso.