Peça sobre repatriamentos dos EUA e Canadá estreia nos Açores


 

Lusa/AO Online   Regional   18 de Jun de 2015, 08:53

A peça "I don't belong here"(Não pertenço aqui), que aborda o repatriamento de portugueses para os Açores, chega no dia 27 a São Miguel, após uma digressão pelo continente em que este "tema brutal" causou "muita emoção".

 

“A recetividade das pessoas à peça tem sido muito boa. A maior parte das pessoas ouviu falar desta questão de uma maneira muito distante, mas agora tem sido uma revelação, porque é uma situação da qual não tinham conhecimento e que as sensibiliza muito”, disse o encenador Dinarte Branco, em declarações à Lusa.

"I don’t belong here", de Nuno Costa Santos e Dinarte Branco, teve antestreia em Montemor-o-Novo, em dezembro de 2014.

Em janeiro, a peça estreou-se em Lisboa, no Teatro Maria Matos, a que se seguiram apresentações em Torres Novas e Porto.

Na segunda parte da digressão, a peça regressou com espetáculos em Guimarães, Coimbra, Ovar e, na sexta-feira e no sábado, estará em cena em Viseu, seguindo-se os Açores.

A peça vai estar na ilha de São Miguel, a 27 e 28 de junho, no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, na cidade da Ribeira Grande, e a 03 de julho na Terceira, na Praia da Vitória.

“É sempre uma reação muito emocional” do público, salientou o encenador Dinarte Branco, considerando que a peça tem vindo a sensibilizar os espetadores para a questão da deportação.

O encenador admitiu que quando recebeu o convite para "uma abordagem artística à temática" também revelava um certo "desconhecimento" sobre a situação, o que "acontece igualmente com os espetadores", visto ser um tema “muito brutal” e a própria situação em que se encontram as pessoas que passam pela experiência da deportação.

“Estão longe das famílias. Longe das suas referências culturais, numa ilha para a qual foram deportados. Não falam português. São tudo elementos que me sensibilizam", confessou.

Além dos atores profissionais, em cena estão também quatro deportados de 45, 54, 55 e 60 anos.

"Partimos de um trabalho em Ponta Delgada que reuniu, no primeiro encontro, cerca de 20 pessoas na situação de deportação, mas com o tempo chegámos a uma número de cinco pessoas, aquelas que mostraram mais interesse e maior capacidade para exporem em palco a sua história", contou.

Inicialmente eram cinco os deportados em cena, mas um deles (Paulo Pacheco) faleceu em fevereiro, segundo o encenador.

O espetáculo é constituído por quatro deportados naturais de São Miguel e, atualmente, residentes em Ponta Delgada (Zita Almeida, António Brum, José Leandro e Luís de Sousa) e dois atores profissionais (Cláudia Gaiolas e Tiago Nogueira).

A peça "cruza histórias nalguns pontos, nomeadamente a partida dos Açores, ainda na infância com a família, a adolescência em cidades americanas e canadianas, as suas histórias, a vida que levaram nos EUA e Canadá, o julgamento, a prisão e o regresso por via da deportação para São Miguel", após a conclusão de processos judiciais, explicou Dinarte Branco.

Para o encenador, estas pessoas acabam por "pagar uma dupla pena", já que após o cumprimento de prisão nos EUA e Canadá são deportados para a ilha onde nasceram, mas que "não visitavam desde a infância".

“A verdade é que uma pessoa depois de ter sido presa tem direito a uma segunda oportunidade. Isto é o que nós advogamos como verdade, mas não praticamos isto”, disse o encenador, salientando que a peça não faz de forma alguma uma abordagem ao tipo de crime que praticaram estes deportados, porque já faz parte do passado.

Este projeto nasceu a partir de um desafio do Observatório dos Luso-Descendentes a Dinarte Branco.

Segundo dados avançados em 2014 pela Direção Regional das Comunidades, do executivo açoriano, em 2011, os Açores receberam 63 deportados e em 2012 um total de 59. Em 2013, o número desceu para 37 e no início de dezembro de 2014 totalizavam 22 naquele ano, sendo que 85 a 90 por cento são homens entre os 25 e os 49 anos.

Os maiores fluxos de deportações para os Açores aconteceram em 1999, 2006 e 2008, sobretudo devido à implementação de políticas de imigração "mais restritivas" nos Estados Unidos da América (EUA) e Canadá.

As autoridades regionais, dos EUA e Canadá têm apostado, sobretudo a partir de 2011/2012, na sensibilização dos emigrantes para a importância de adquirirem a nacionalidade norte-americana ou canadiana.

 

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