“Os lazaretos eram locais para toda a eternidade de onde nunca se regressava”

“Os lazaretos eram locais para toda a eternidade de onde nunca se regressava”

 

Isidro Fagundes / Rui Jorge Cabral   Regional   7 de Ago de 2010, 20:03

No próximo dia 14 de Agosto, no Salão Paroquial de Água d’Alto, no concelho de Vila Franca do Campo, José Maria Teixeira apresenta a obra "A propósito d’os Lázaros de Água d’Alto", da autoria de Miguel Soares da Silva.

Antecipando a apresentação do livro, o autor, em entrevista ao Açoriano Oriental, desvendou-nos um pouco do conteúdo da obra, pela qual se descreve a história da Lepra nos Açores e o seu impacto na cultura das ilhas.

Água d’Alto, cujo padroeiro é São Lázaro, é o cenário central do livro, ou não estivesse esta freguesia do concelho de Vila Franca do Campo intimamente ligada à história do combate à praga, cuja origem nos Açores remonta aos tempos do povoamento.

"Este é um tema que diz muito à freguesia de Água d’Alto, diz muito à freguesia de São Miguel, e também a quase todos os Açores" explicou-nos Miguel Soares da Silva.

"O hospital dos Lázaros, dos leprosos, foi construído precisamente em Água d’Alto porque era vizinha de Vila Franca do Campo, que na altura do povoamento era a capital da ilha. Nessa altura, começaram a aparecer os casos de leprosos, ‘importados’ nos barcos que chegavam a São Miguel", refere o autor.

Tal era a importância do Lazareto de Água d’Alto que, sublinha Miguel Soares da Silva, a freguesia adoptou a figura de São Lázaro como padroeiro. O espectro da Lepra, que nos Açores surge com a chegada dos povos do sul de Portugal e do norte de África, só no início do século XX é completamente apagado, sublinha o autor no livro "A propósito d’os Lázaros de Água d’Alto", o que, no seu entender, explica a profundidade da marca que a doença deixou no imaginário e na cultura açoriana.

"No fim do livro, faço referência às minhas próprias recordações de infância. A própria linguagem dos açorianos reflectia muito esse mal da Lepra. No meu tempo de criança era habitual as nossas mães usarem imensos termos que lembravam esses tempos. Avisavam-nos para não ir para determinados lugares, e metiam-nos medo, com o carro da Lepra, ou o velho da Lepra, ou simplesmente o velho, que recolhia as crianças e levava-as para não sei onde", recorda o escritor, um ‘viciado’ na pesquisa histórica açoriana, confessa.

À praia do Degredo, chegavam os barcos que se presumia estarem contaminados. Lá se inspeccionavam mercadorias e pessoas, e os infectados, pelo menos os que não conseguiam escapar, eram enviados para os Lazaretos, onde, relembra Miguel da Silva, estavam destinados a uma vida de solidão para toda a eternidade.

"Iam para lugares de onde não se regressava", sublinha o escritor.

"Os lazaretos eram construções com muros muitíssimo altos, praticamente intransponíveis e as famílias que iam lá levar um leproso praticamente despediam-se dele para a eternidade, infelizmente. Hoje, com 25 euros se cura um leproso", ressalva Miguel Soares da Silva.


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