Obama acolhe Karzai, aliado incómodo mas incontornável

Obama acolhe Karzai, aliado incómodo mas incontornável

 

Lusa/AO Online   Internacional   11 de Mai de 2010, 09:13

A visita do presidente afegão aos EUA, na quarta-feira, surge na sequência de iniciativas visando acalmar as tensões acumuladas entre a Administração Obama e o regime de Cabul, quando se prepara uma fase decisiva do conflito afegão.

As relações entre Washington e o regime de Hamid Karzai têm atravessado dias difíceis desde o início do mandato de Barack Obama. As denúncias de fraude nas presidenciais de Agosto último e uma série de azedumes entre o presidente afegão e os enviados de Washington interromperam praticamente o diálogo entre a Casa Branca e o regime de Cabul.

Nas últimas semanas, os desencontros ameaçavam mesmo pôr em causa a estratégia afegã do presidente Obama, no momento crítico em que as forças lideradas pelos EUA preparam a maior operação militar em quase nove anos de guerra para retomar o controlo da cidade de Kandahar, berço espiritual e principal bastião dos talibã.

Barack Obama apontou o dedo à corrupção que campeia no Afeganistão durante uma visita surpresa a Cabul, a 28 de Março, e a Casa Branca deu amplo eco às acusações do presidente. Hamid Karzai reagiu multiplicando nos dias seguintes com uma série de discursos em tom de desafio aos EUA.

Karzai acusou o Ocidente de ser o grande responsável pelas fraudes que marcaram as presidenciais afegãs e pela própria corrupção. Acusou a comunidade internacional de instalar uma espécie de "governo paralelo" de conselheiros civis e militares e disse que a coligação militar Ocidental estava à beira de ser olhada como uma força ocupante e de legitimar a insurreição como "uma resistência nacional".

Numa reunião com deputados afegãos Hamid Karzai ameaçou mesmo, segundo testemunhos citados pela imprensa norte-americana, juntar-se aos talibã caso o ocidente continuasse a pressioná-lo.

Pelo meio, o líder afegão recebia o presidente do Irão, alardeava a aproximação à China e reunia-se por iniciativa própria com os líderes de um grupo insurrecto, enquanto da Casa Branca saíam rumores de que a programada visita do presidente afegão a Washington podia ser cancelada.

E ao mesmo tempo que responsáveis norte-americanos evocavam os preparativos para a ofensiva contra os talibã em Kandahar, Karzai deslocava-se à cidade numa visita surpresa para garantir aos líderes tribais locais que não haveria qualquer ofensiva na área sem a sua anuência, numa atitude de desafio aberto a Washington.

A situação atingiu um ponto de tal modo crítico que terá aconselhado à Casa Branca alguns gestos conciliatórios. A secretária de Estado Hillary Clinton enalteceu o bom relacionamento com Cabul e Barack Obama veio a público manifestar a sua confiança na capacidade da liderança de Hamid Karzai para garantir a estabilidade do país.

Mais do que uma tentativa de conter os danos na relação com Cabul, os gestos conciliatórios da Administração Obama terão traduzido uma reavaliação da atitude face ao líder afegão. Responsáveis da Administração norte-americana reconheceram, em comentários em privado citados pela imprensa norte-americana, que o endurecimento face a Karzai posto em prática por Barack Obama se terá afinal revelado contraproducente, incentivando atitudes de retaliação e de desafio do número um de Cabul.


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