Mudanças podem afetar culturas, como a vinha, e reduzir dias de geada


 

Lusa/AO Online   Economia   23 de Nov de 2015, 18:29

As alterações climáticas vão afetar a agricultura, podendo levar à perda de qualidade das uvas e a nova localização das vinhas, mas também podem diminuir o número de dias de geada, evitando a destruição de culturas, segundo especialistas.

Apesar destas alterações, a adaptação às condições climatéricas é "uma questão muito natural no próprio agricultor", que todos os anos tem de definir a data de sementeira, atendendo às previsões meteorológicas, salientaram Alexandra Brito, da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) e Ana Paiva Brandão, da Agro.Ges.

A temperatura média mais elevada, a redução da precipitação, o aumento dos fenómenos meteorológicos extremos, como secas e cheias, são algumas das consequências das alterações climáticas, cujo agravamento os países vão tentar travar na conferência das Nações Unidas, em Paris, a partir da próxima semana.

"Vai haver duas forças antagónicas, por um lado, menos disponibilidade de água, por outro lado, mais necessidade de água para a agricultura", resumiram as especialistas que participaram na conferência "Empresas na Adaptação Local: Desafios e Oportunidades das Alterações Climáticas", a decorrer hoje em Lisboa.

Em Portugal, há uma grande diversidade de solos e de climas, assim como de ocupação agrícola, que as mudanças vão afetar de forma diferente.

"Em termos de alterações climáticas, não é tudo negativo, pode haver fatores positivos, como a diminuição do número de dias de geada" ou as geadas tardias não serem tão frequentes, como acontece atualmente no interior do país, em algumas alturas, disse à agência Lusa Alexandra Brito, à margem da conferência.

Ana Paiva Brandão acrescentou "outro impacto evidente" relacionado com "as necessidades térmicas das culturas, que pode acelerar o ciclo vegetativo e [provocar] perda de qualidade dos produtos, como no caso da uva".

As culturas de vinha e de olival, por exemplo, devem subir em termos de latitude, e "atrás das culturas vão também as pragas mais sensíveis ao frio", que podem passar a estar ativas em zonas mais a norte do que aquelas onde atualmente são encontradas, apontou Alexandra Brito.

"Podemos ter também o aparecimento de culturas que até hoje não aconteciam no nosso país, como culturas agora residuais no Algarve, como a pera abacate", continuou a técnica da Agro.Ges.

A especialista da CAP recordou que os agricultores sempre procuraram adaptar-se às mudanças do clima, desde os romanos, com recurso ao regadio, por exemplo, armazenando água no inverno para a fornecer às plantas no verão.

"Agora já estamos um passo mais à frente que é conseguir com a mesma água regar mais, ou regar a mesma área mas com menos água [porque] surgiram sistemas que são muito mais eficientes", salientou Alexandra Brito.

Atualmente, algumas culturas são regadas com quantidades de água que "são metade daquelas que se regavam há 15 ou 20 anos atrás, independentemente da espécie", referiu, exemplificando com o milho, o tomate ou o arroz.

Os sistemas de rega localizada, que permitem fornecer água onde a planta precisa ou sondas para perceber qual o teor de humidade no solo, são exemplos de técnicas que evoluíram muito nos últimos anos.

A adaptação também é feita através da escolha de espécies ou de datas de sementeira, embora possa levar a redução da produtividade, referiu ainda Alexandra Brito.


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