Mota Amaral e César recordam concertação de posições com a Madeira apesar de "momentos mais tensos"

Mota Amaral e César recordam concertação de posições com a Madeira apesar de "momentos mais tensos"

 

Lusa/AO Online   Regional   29 de Jan de 2016, 04:57

As relações entre os governos regionais dos Açores e da Madeira foram marcadas, nos primeiros tempos da autonomia, pelo "acertar de agulhas", mas há cerca de uma década o distanciamento foi notório, acompanhado de crispação política.

 

À agência Lusa, o antigo presidente do Governo dos Açores Mota Amaral (PSD) recordou as reuniões entre os dois executivos, que começaram “logo nos primeiros tempos da vigência da Constituição de 1976”, sendo que 1977 marca o ano da primeira visita de um presidente do executivo madeirense – Ornelas Camacho - a Ponta Delgada.

Mota Amaral retribuiu a visita pouco tempo depois e os encontros foram-se sucedendo “com regularidade” já com o social-democrata Alberto João Jardim na liderança do executivo da Madeira.

“Não eram reuniões anuais, mas nunca passaram dois anos, certamente, sem nos encontrarmos”, afiançou o antigo chefe do Governo dos Açores, notando que esses encontros “permitiam um acerto de posições relativamente aos problemas comuns” da experiência autonómica, então a dar os primeiros passos.

Mota Amaral adiantou que o “acertar de agulhas” se estendeu à presença na União Europeia, “onde havia interesses comuns a defender”, assinalando que se procurou igualmente a concertação inter-regional “em matérias de desenvolvimento económico”.

“Tudo isso foi extremamente vantajoso e muito benéfico para um bom entendimento e para a defesa dos interesses comuns perante as entidades nacionais e europeias”, considerou o ex-governante, que diz guardar de Jardim, o político português que mais tempo esteve no poder, “uma pessoa empenhada na defesa dos interesses da Madeira”.

Questionado se os governos das duas únicas regiões autónomas, que se reúnem a partir de sábado para um encontro classificado como histórico, estiveram mais próximos no início da afirmação da autonomia do que agora, João Bosco Mota Amaral argumentou que “as comparações são sempre odiosas”, escusando-se a entrar em polémicas, mas sublinhou ter tido como uma das suas alíneas prioritárias o “bom entendimento com a Madeira”.

“Foi sempre possível superar essas divergências de interesses, procurando sempre aquilo que nos aproximava mais do que aquilo que nos separava”, referiu, reconhecendo, porém, um dado factual: “Essas reuniões regulares deixaram de se verificar, terá havido uma ou outra nessa última vintena de anos”.

O antigo governante, que na IX cimeira das duas regiões, em 1992, saiu em defesa de Jardim perante acusações de um alegado défice democrático na Madeira, deixou o Governo dos Açores nas mãos de Madruga da Costa em 1995 e, no ano seguinte, o arquipélago virou à esquerda, elegendo o socialista Carlos César.

Conta hoje Carlos César que, nos dossiês que lhe foram transmitidos, “não existia qualquer informação que fosse minimamente relevante de relacionamento” com a Madeira, notando que, em 1996, as relações entre as duas regiões “eram praticamente inexistentes”.

“De resto, as cimeiras que na altura ocorreram foram momentos meramente protocolares e sem qualquer sequência”, considerou o socialista, para quem que não foi “uma relação que tenha sido especialmente frutífera, inclusive no plano económico”.

Carlos César acrescentou que “nunca deixou de existir ao longo destes anos reuniões” com representantes das duas regiões e, dependendo do destinatário, “em algumas circunstâncias, mesmo no plano interno”, os interesses dos arquipélagos, sendo coincidentes, proporcionaram que se falasse a uma só voz.

“Em várias ocasiões eu intercedi pelos interesses da Região Autónoma da Madeira junto de governos presididos pelo Partido Socialista e, se não fui enganado, também o Governo Regional da Madeira fez o mesmo quando existiam governos da responsabilidade do PSD”, declarou.

O ex-presidente do Governo dos Açores realçou, por outro lado, que na Europa as duas regiões falaram “quase sempre a uma só voz”.

“Independentemente dos momentos mais tensos no plano da relação política e até, por vezes pessoal, o saldo não é muito negativo, também tive oportunidades de contacto e de trabalho em comum, particularmente na vertente europeia", assinalou.

Segundo Carlos César, com Jardim articulou “com muita frequência” o que se ia propor nas reuniões em que ambos participavam, registando que a Madeira “sempre defendeu o posicionamento dos Açores em relação a algumas produções” e o inverso também aconteceu: “Para utilizar uma linguagem icónica mais cavaquista, nós tanto defendemos com vigor a banana como eles as vacas”.


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