Associação alerta para crime ambiental

Milhares de cagarras mortas em Cabo Verde


 

Lusa/AOonline   Internacional   22 de Dez de 2007, 10:50

Cabo-verdianos mataram, entre 05 e 20 de Outubro deste ano, mais de 12.000 cagarras-de-Cabo Verde, uma espécie de ave marinha ameaçada e que vive sobretudo no ilhéu Raso, perto de São Nicolau, desde 2003 classificado como reserva natural.
 A denúncia parte da associação ambientalista Biosfera I, da ilha de S. Vicente, que esta semana apresentou na capital do país, Cidade da Praia, uma exposição sobre o atentado ambientalista que se repete todos os anos.

    Segundo o presidente da associação, desde a década de 40 que a história se repete: no ilhéu Raso, onde vive 75 por cento da população mundial da cagarra-de-Cabo-Verde (Calonectris edwardsii), os populares matam milhares de crias na altura em que estão prestes a sair do ninho.

    "Há três anos mataram entre 30 a 35 mil cagarras, no ano passado mataram no ilhéu Raso 27 mil crias, este ano não chegou a 13.000", disse à Agência Lusa José Melo, técnico de pesca, ambientalista e presidente da Biosfera I.

    A diminuição da mortandade não se deve a uma maior consciência ambiental, frisou José Melo, explicando que ela é apenas consequência de uma diminuição assustadora da população de cagarras-de-Cabo Verde, que actualmente não chega a 15 mil exemplares.

    "A cagarra só põe um ovo, em Junho. A cria nasce no mês de Julho e é alimentada pelos progenitores até Outubro. É nessa altura, em duas semanas, que os pescadores apanham milhares de crias", contou.

    A exposição não foi visitada por qualquer responsável do governo de Cabo Verde, embora tenha sido precisamente este executivo que integrou o ilhéu Raso, em 2003, por decreto-lei, na Reserva Natural Integral de Santa Luzia e Ilhéus.

    Apesar da classificação como área protegida, por lei, o executivo nunca protegeu, até hoje, as cagarras, nem impediu a morte de milhares destas aves todos os anos, acusou José Melo, acrescentando que não é por desconhecimento da situação, porque a Biosfera I tem alertado com frequência para o problema, inclusivamente num encontro com o próprio primeiro-ministro, José Maria Neves.

    "Em termos de legislação a cagarra está protegida. O ilhéu Raso faz parte da reserva natural e Cabo Verde tem assinado protocolos de protecção das espécies endémicas. Em termos de lei, temos tudo mas não há, literalmente, nenhuma protecção", lamentou.

    Na exposição, a Biosfera I apresenta um vídeo no qual se vê pescadores a apanharem as crias, a torcerem-lhe o pescoço e grandes montes de penas e cagarras mortas.

    Quer José Melo, quer Tommy Melo, biólogo, não entendem como é possível esta matança anual numa ilha protegida, especialmente porque as condições geográficas do ilhéu apenas permitem um local para se aportar, o que facilitaria a fiscalização.

    Como nada foi feito até agora, José Melo e Tommy Melo temem que, se a matança continuar, as cagarras do ilhéu Raso vão acabar em três anos.

    Mas o desprezo pelo ambiente tem outras consequências, alertam: com o fim das cagarras acaba também a espécie de lagarto que existe na ilha, única no mundo, que se alimenta dos excrementos das aves e dos insectos que eles atraem.

    Se os pescadores vão matando as cagarras-de-Cabo Verde em todos os Outubros, no dia-a-dia tentam também capturar outra ave da ilha, a calhandra (espécie de cotovia), que, segundo os dois responsáveis, é "a ave mais rara do mundo".

    "Em 2004 havia no ilhéu 250 calhandras, no ano passado 72 e este ano 18", diz José Melo, acrescentando que por se tratar de uma ave dócil é capturada viva e vendida para viver em cativeiro.

    A calhandra é uma ave única no mundo, que só voa a 10 metros de altura e não consegue voar mais do que 30 metros de comprimento, pelo que está confinada ao ilhéu Raso.

    "Todo o ilhéu Raso tem um endemismo fabuloso. E só estamos a falar da fauna, porque em termos de flora é também riquíssimo", conta José Melo.

    A cagarra-de-Cabo Verde é única no mundo e começou a ser morta na década de 40, para suprir os efeitos da fome que então assolava o arquipélago.

    "Hoje é apanhada para ser vendida nos restaurantes de Santo Antão, como prato típico", conta José Melo, frisando que são aproveitados 55 a 60 gramas de carne, ao custo de dois euros, o mesmo preço de um quilo de frango.

    O ilhéu Raso, entre Santa Luzia e São Nicolau, tem menos de sete mil metros quadrados e é fácil de proteger "porque a matança ocorre apenas 15 dias por ano", só falta "vontade política", dizem os dois responsáveis.

    Este ano, a 04 de Outubro, o jornal O Liberal alertava que no dia seguinte iriam começar a sair botes de Sinagoga (Santo Antão) para irem, em alguns dias, "esvaziar os ninhos das indefesas aves que antigamente abundavam em Cabo Verde", acrescentando: "Os departamentos do Estado com responsabilidade na matéria, vão, este ano, ainda a tempo de evitar mais este atentado contra a escassa vida selvagem do país."

    A Biosfera I tem procurado sensibilizar as populações para o perigo que as aves correm, com palestras em liceus e exposições como a da Cidade da Praia.

    A associação foi criada no ano passado, no seguimento de uma feira ambientalista (Ecofeira 2006), no Mindelo, que reuniu biólogos e naturalistas e que se destinou a chamar a atenção para os problemas ambientais de Cabo Verde, país onde também todos os anos são capturadas e mortas centenas de uma espécie de tartaruga em vias de extinção.

    José Melo e Tommy Melo querem agora levar a exposição sobre o abate de cagarras a Lisboa.

    No mundo existem três espécies de cagarras, aves migratórias de longa distância, que passam a maior parte do tempo voando sobre o oceano e só vão a terra para se reproduzir.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
 
Termos e Condições de Uso.