Amigos de António Dacosta recordam pintor emigrante que nunca abandonou os Açores


 

Lusa/AO online   Regional   3 de Nov de 2014, 15:02

António Dacosta faria esta segunda-feira 100 anos e os amigos recordam-no com um grande pintor e poeta, que apesar de viver em Paris nunca abandonou os Açores, onde nasceu.

 

"Ele nunca deixa a ilha", salientou, em declarações à Lusa, o escritor Álamo Oliveira, explicando que mesmo na fase surrealista de Dacosta sempre estiveram presentes influências dos Açores, por exemplo, no quadro "A festa", em que se vê um bezerro enfeitado, como nas Festas do Divino Espírito Santo.

António Dacosta nasceu em Angra do Heroísmo, no dia 03 de novembro de 1914, onde viveu até ir estudar belas artes para Lisboa e foi um dos pioneiros do surrealismo em Portugal.

Em 1947, ganhou uma bolsa e mudou-se para Paris, o que acabou por resultar num interregno na pintura de mais de duas décadas, em que Dacosta se dedicou à escrita, sobretudo à crítica de arte.

Segundo José Luís Porfírio, curador de uma exposição sobre António Dacosta patente no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, o artista açoriano não emigrou com a ambição de ser um grande pintor e mesmo quando voltou a pintar fê-lo sempre para Portugal.

"António Dacosta funcionou sempre em função de Portugal e até mais, em certos casos, em função dos Açores", frisou.

Foi em Paris que o pintor conheceu a sua segunda mulher, Miriam, uma historiadora de arte, que trabalhava numa galeria.

Nessa altura, Miriam não sabia que Dacosta era pintor, porque ele tinha parado de pintar e ela não conhecia o seu passado, mas percebeu desde cedo que ele "tinha muitas ideias novas e interessantes".

Segundo Miriam, quando chegou a Paris, António Dacosta teve oportunidade de ver quadros de Picasso, Miró ou Dalí, que nunca tinha visto em Lisboa, e ficou tão "impressionado" que passou a dedicar-se apenas à crítica literária.

"Ele achava que não tinha o nível necessário", frisou.

Só passadas duas décadas, já casado e com filhos pequenos, voltou a pintar em França, mas a expor sempre em Portugal.

"Tendo passado vinte anos sem pintar, ele achava que tinha coisas para dizer e depois começou a pintar. Os amigos ficavam atentos ao que ele estava a fazer", contou Miriam.

Apesar de ter ficado alguns anos sem visitar a terra onde nasceu, Dacosta "trazia com ele um pouco dos Açores" e "estava muito dentro do que se estava a passar" no arquipélago, o que se reflete nos seus quadros, sobretudo na última fase.

Álamo Oliveira só conheceu António Dacosta na década de 80, na ilha Terceira, onde ambos nasceram, mas apesar de distantes mantiveram uma amizade por correspondência.

"Ele era uma pessoa extremamente sociável e tinha um certo encantamento na maneira como falava com as pessoas", recordou.

Para o escritor, António Dacosta foi "um dos maiores pintores do século passado" e deixou uma obra "notável", mas apesar de ser um "filósofo profundo", tinha facilidade em transmitir as suas ideias.

"Nada na pintura dele ou na escrita dele aparece exposto de forma complicada. Aquilo aparece tudo muito elaborado, tudo muito trabalhado, mas tudo muito simples para que toda a gente compreenda", explicou.

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