Memórias do maior acidente aéreo do país mantêm-se vivas em Vila do Porto

Memórias do maior acidente aéreo do país mantêm-se vivas em Vila do Porto

 

Lusa/AO Online   Regional   14 de Abr de 2016, 08:54

Quando o bombeiro José Botelho chegou ao Pico Alto, em Vila do Porto, nos Açores, onde ocorreu o maior acidente aéreo do país, estava ainda esperançado em encontrar vida por entre os escombros do avião que se despenhara.

 

“Foi uma cena macabra a que encontrámos, o silêncio era absoluto. Não se ouvia nada, nem um pássaro cantava. Chamámos para ver se alguém gemia”, recorda o antigo bombeiro profissional, não esquecendo os corpos que encontrou desmembrados e decapitados por toda a área onde teve lugar o embate.

A 08 de fevereiro de 1989, um Boeing 707 da ‘Independent Air’, com 144 pessoas a bordo, despenhou-se quando se preparava para fazer uma escala técnica no aeroporto da ilha de Santa Maria, em Vila do Porto, que, na altura, era um ponto de paragem obrigatória entre os continentes europeu e americano.

O avião provinha de Bergamo, na Itália, e dirigia-se para a República Dominicana, nas Caraíbas.

José Botelho, que era naquele dia o chefe de turno na placa do aeroporto, foi alertado pela torre de controlo para um eventual embate do avião no Pico Alto e partiu para o terreno com seis bombeiros e três viaturas.

Apesar de ser bombeiro profissional desde 1989 e estar mentalizado para enfrentar todos os cenários possíveis, José Botelho assegura que estava longe de imaginar o “cenário dantesco” encontrado.

“Começámos a entrar no mato e a tropeçar nos corpos”, diz José Botelho, acrescentando que “o que veio depois” foi o que mais o marcou, numa alusão aos pesadelos que ainda hoje o atormentam e o levam a visualizar os corpos das vítimas uma e outra vez.

José Humberto Chaves, que era presidente do município de Vila do Porto na altura do acidente, foi alertado pelos serviços da transportadora aérea açoriana SATA para a possibilidade de ter caído um avião.

“A única coisa que eu fiz, e que tinha que fazer, foi deslocar-me para o local e apurar o que se estava a passar”, refere o atual provedor da Santa da Misericórdia de Vila do Porto.

O que mais impressionou o antigo autarca foi o silêncio e, depois, os corpos dilacerados e a fuselagem do avião.

“Por mais que eu queira esquecer e dizer que isso já passou, nunca mais esqueci. Quando vou ao Pico Alto, por alguma razão, sinto e lembro perfeitamente aqueles momentos”, declara José Humberto Chaves.

Quando passaram 25 anos sobre o acidente, Jorge Arruda, que desempenhava as funções de diretor do aeroporto, afirmou em declarações à agência Lusa que, apesar de estar preparado para esta eventualidade, foi “naturalmente, apanhado de surpresa”.

“Estava a almoçar com uma equipa de colegas da ANA (Aeroportos de Portugal) que se tinha deslocado a Santa Maria e fui alertado, por telefone, para a queda de um avião no Pico Alto. Peguei no carro e dirigi-me para o local, tendo avisado, entretanto, o aeroporto e desencadeado o plano de emergência”, recorda Jorge Arruda, a primeira autoridade a chegar ao local.

O responsável pelo aeroporto bloqueou o acesso ao local do acidente aos curiosos até que chegassem os bombeiros da ANA, tendo, posteriormente, regressado a Vila do Porto para alertar as entidades oficiais.

“A população sentiu o impacto enorme do embate do avião e muitos voluntariaram-se para ajudar no que fosse necessário”, lembrou, na ocasião, Jorge Arruda.

Hoje, 27 anos depois, esse impacto continua ainda bem vivo em todos os que o sentiram.

 

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