Maioria dos jornalistas recebe menos de mil euros e um terço é precário


 

Lusa/Açoriano Oriental   Internacional   12 de Jan de 2017, 11:24

A maioria dos jornalistas recebe menos de mil euros líquidos por mês e um terço trabalha com vínculo precário, segundo um inquérito do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa.

 

O trabalho, realizado por uma equipa do CIES-IUL (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa), em parceria com o Sindicato dos Jornalistas e o Obercom, conclui que, no ano passado, 69% dos jornalistas recebiam entre 501 e 1.500 euros líquidos por mês, dos quais 23,3% recebiam entre 1001 e 1.500 euros, 23,9% entre 701 e 1.000 euros e 21,8% menos de 700 euros.

“Se estabelecermos os 1.000 euros como ponto de divisão, verificamos que 57,3% dos jornalistas ganham menos, apesar de o rendimento mensal médio líquido ser de 1.113 euros”, lê-se num sumário do estudo, intitulado 'Os jornalistas portugueses são bem pagos? Inquérito às condições laborais dos jornalistas em Portugal'.

Porém – acrescenta o estudo a apresentar no sábado durante o 4.º Congresso dos Jornalistas, que decorre de hoje a domingo em Lisboa – "11,6% dos jornalistas recebem menos de 500 por mês e, desses, 7% nem sequer recebem 300 euros”.

No que respeita aos rendimentos na profissão, o trabalho evidencia ainda que só 19,4% dos jornalistas recebem mais de 1.500 euros mensais, sendo que, destes, 10,8% ganham até 2.000 euros, 3,6% até 2.500 euros e só 5% auferem um valor superior.

O estudo – cujos autores garantem ser “o mais recente e abrangente inquérito já realizado em Portugal, respondido por quase 1.500 jornalistas” – conclui também que, destes, 87,5% encontravam-se a trabalhar, enquanto 7,9% estavam em situação de desemprego.

Além destes, 2,2% estavam reformados e 2% em estágio (1,5% em estágio profissional e 0,5% em estágio curricular).

Relativamente aos vínculos laborais, o ISCTE nota que, no ano passado, 33,4% dos inquiridos não tinham contrato fixo, trabalhando “em condições contratuais precárias e sujeitos a instabilidade, insegurança e fragilidade”.

Neste grupo incluem-se os colaboradores (16,4%), dos quais a maioria (8,8%) tinha uma avença e os restantes (7,6%) trabalhavam à peça, e os 17% de profissionais que se assumiram como ‘freelancers’.

Entre os inquiridos, dois terços referiu ter contrato de trabalho, 56,3% dos quais sem termo e 10,5% a termo certo.

Em 2016, os contratos de trabalho dos jornalistas em Portugal eram maioritariamente de 35 a 40 horas semanais (64,7%), mas 27,7% afirmaram não saber a carga horária semanal prevista nos seus contratos e a maioria assumiu trabalhar mais de 40 horas por semana (13,8% têm uma semana laboral de 51 a 60 horas e 9% até trabalham mais de 60 horas).

Apesar da elevada percentagem de jornalistas que trabalha mais horas do que o previsto no seu contrato, apenas 3,9% são remunerados pelas horas extraordinárias e 10,2% são compensados em tempo de descanso pelo trabalho extra, sendo que quase dois terços do total (63,4%) não têm qualquer compensação pelo trabalho extraordinário.

Algo que, sustentam os autores do trabalho, demonstra “uma elevada discrepância entre a carga horária contratualizada, a prática profissional efetiva e a remuneração devida”.

Num mercado descrito como de “elevada concentração”, o ISCTE diz haver 25,8% de jornalistas que prestam serviço para mais de um órgão de comunicação social dentro do mesmo grupo, dos quais mais de dois terços (66,8%) não recebem remuneração extra por esse trabalho.

“A progressão na carreira dos jornalistas inquiridos parece quase impossível, pois mais 80% não têm progressão há mais de quatro anos, mesmo nas empresas de comunicação social onde ela está prevista”, lê-se no sumário, que acrescenta que “28,4% de jornalistas não progridem na carreira há mais de uma década e 29,4% têm a carreira congelada há pelo menos sete anos”.

Por outro lado, são 22,5% os que não progridem há quatro a seis anos e 19,7% os que estão sem progressão na carreira há menos de três anos.

Neste contexto laboral, o trabalho nota que “quase dois terços dos jornalistas inquiridos (64,2%) já pensaram, pelo menos uma vez, abandonar a profissão”, apontando como motivos o baixo rendimento (21%), a degradação da profissão (20,4%) e a precariedade contratual (14,3%).

E, se 39,2% dos jornalistas inquiridos já passou pelo desemprego, estes profissionais estão “muito divididos quando à probabilidade de perderem o emprego no futuro próximo”: “Se 35,1% consideram que ficar desempregado é improvável, 40,9% acham provável, com 15,7% a afirmarem que é extremamente provável a curto prazo”.

“Apesar de a maioria dos jornalistas que já passou pela situação de desemprego ter conseguido regressar à profissão em menos de um ano, a perceção dos inquiridos acerca da probabilidade de voltar a encontrar emprego no jornalismo perante uma situação de desemprego em 2016 é muito pessimista”, acrescenta.

Composto por 78 perguntas, o inquérito do ISCTE foi respondido por quase 1.600 jornalistas entre 01 de maio e 13 de junho de 2016, tendo sido validadas 1.494 respostas.

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