Maior fogo do ano podia ter sido evitado se limpeza da mata fosse economicamente vantajosa


 

Lusa / AO online   Nacional   7 de Ago de 2010, 13:31

O maior incêndio registado até agora no país foi o que queimou no final de julho quase 900 hectares em Arouca, onde moradores, autarquia e bombeiros defendem que situações iguais se evitariam se a limpeza dos terrenos fosse rentável.

Este foi o fogo que destruiu mais área até quinta feira, tendo durado quatro dias, entre 26 e 30 de julho.

Constantino Gomes, que teve a sua casa em risco quando o fogo chegou a Lázaro, na freguesia de S. Miguel do Mato, garante: “Nunca na vida houve cá um fogo assim. Quando há um incêndio, as pessoas aqui têm a mania de querer defender o mato, mas desta vez desistiram e quiseram é proteger as casas”.

Para este morador, situações idênticas evitar-se-iam se a legislação relativa ao tratamento das áreas florestais fosse alterada.

“Se quisermos lavrar aqui, só nos deixam usar um sistema ripado e isso não compensa economicamente”, explicou, adiantando: “Como os terrenos são inclinados, deviam deixar-nos fazer banquetas [socalcos], porque depois era mais fácil limpar o mato com máquinas pequenas”.

O comandante dos Bombeiros Voluntários de Arouca, Carlos Esteves, reconhece que “não se está a fazer o que se devia em termos de manutenção das matas” e declara: “Sei que o rendimento da propriedade não dá para os donos terem os terrenos limpos e, se isso não for regulamentado de alguma forma, cada vez teremos incêndios maiores”.

Em muitos dos locais de Arouca que no final de julho foram consumidos pelo fogo ainda se veem acumuladas, entre as cinzas, garrafas de vidro, pratos, latas de conservas e lâmpadas.

Para Carlos Esteves, esse cenário “é uma tristeza que está na origem de muitos reacendimentos”.

“É difícil chegar ao que está no fundo e por isso é que às vezes, ao fim de dias, há a eclosão de outro incêndio”, observa. “Com temperaturas de 42 graus como as daquela semana, vento seco que chegava aos 25 quilómetros por hora e vegetação rasteira que, em tamanho, chega a cobrir um homem, imagine-se o que um ser humano tem que resistir para estar ali a combater”.

O presidente da Câmara Municipal de Arouca, José Artur Neves, realça que o incêndio deste final de julho “foi importado de outros concelhos”, mas admite que “limpar a mata todos os anos não dá rendimento nenhum” e defende que a região beneficiaria de uma “central de biomassa como a que está prevista para a fronteira com Castelo de Paiva”.

“A EDP Renováveis tem a concessão, mas ainda não avançou com o investimento porque o Governo não tem tido abertura para aumentar o valor da tarifa a pagar pela energia resultante de biomassa”, adianta o autarca.

“Aguardamos novidades a esse nível, porque a central iria gerar microempresas associadas à limpeza da mata e com isso era fácil tê-la limpa e ordenada”.

O Incêndio que se combateu em Arouca de 26 a 30 de julho destruiu 2441 hectares de terreno, incluindo áreas de Gondomar, Castelo de Paiva e Feira – que foi o concelho mais afetado, ao perder 1100 hectares.

Dos quatro municípios, Arouca é o que tem mais área florestal – cerca de 80 por cento do território é área verde – e a sua preservação envolveu 98 homens das corporações de Arouca, Fajões, Ílhavo, Vagos e Aveiro, assim como 23 viaturas, dois aerotanques Canadair e três helicópteros (dois dos quais da Afocelca - Associação de Produtores Florestais).


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