Liduíno Borba

Livros para escrever “até depois de morrer”

Livros para escrever  “até depois de morrer”

 

João Rocha   Regional   21 de Jan de 2018, 14:00

Liduíno Borba nasceu a 7 de fevereiro de 1956, na freguesia de São Mateus da Calheta, na ilha Terceira. Escreve desde os 16 anos e a sua obra literária é inspirada na envolvência popular. Por esta faceta, não rejeita o epíteto de “escritor do povo”.


Em 10 anos, escreveu 50 livros. Qual é a origem de tão profícua inspiração literária?

É verdade, são 50 livros escritos em 10 anos, uma parte em coautoria com o meu amigo José Fonseca de Sousa. A origem pode ser explicada, em primeiro lugar, por gostar de escrever, o que faço desde os meus 16 anos; em segundo por haver muitos assuntos para serem tratados em livro; e, em terceiro, por existirem os atuais meios digitais que ajudam a escrever muito em pouco tempo. Há 40 anos atrás não teria conseguido escrever um terço destes livros.

 Como consegue conciliar a escrita e a atividade empresarial?

 Continuo com a minha atividade empresarial do armazém de 2.ª Mão, e também da Editora Turiscon, mas ocupando cada vez menos tempo no meu dia a dia. Limito-me a uns fechos de contas e pagamentos, por opção e escolha de minha mulher que decidiu fazer parte do meu serviço, deixando-me assim a fazer o que mais gosto – escrever.

 História e cultura popular são assumidamente as suas áreas de eleição. Sente-se um “escritor do povo”?

História e cultura popular são realmente as áreas mais tratadas nos meus livros. O que é um “escritor do povo”?

Tenho tratado nos meus livros história desde o povoamento aos nossos dias, com envolvência de todas as classes sociais, como não pode deixar de ser; tenho tratado sucessos empresariais; tenho registado Irmandades centenárias que os nossos emigrantes na diáspora levaram a “bom porto”; biografias de improvisadores também têm sido uma área preferencial. Se por todos estes livros terem uma envolvência muito grande do povo me querem chamar “escritor do povo” pois que assim seja.

 Qual foi o livro que lhe deu maior prazer escrever?

O prazer de escrever foi sentido em todos os livros porque é sempre com paixão que o faço e cada um é uma novidade, mas gostaria de salientar o primeiro – “História de São Mateus da Calheta” – porque para além do primeiro, foi o maior até hoje, o que a mais investigação obrigou em cerca de 4 anos, o grande número de pessoas que contactei, as páginas de livros de consultei e li (mais de 30.000), mas acima de tudo o que aprendi acerca da minha freguesia de nascimento.

Tem escrito muito sobre a comunidade emigrante radicada nos Estados Unidos e Canadá. A nossa diáspora também representa um filão literário?

É verdade. São 16 livros escritos sobre a nossa comunidade emigrada. Há alguns cantadores incluídos na coleção “Improvisadores”. Tem outra coleção “Figuras da Diáspora” que já vai no 5.º livro e que tem outros planeados. Já fiz a história de duas Irmandades do Espírito Santo centenárias – Turlock e Gustine – e outros poderão surgir.

As histórias da nossa emigração são mais que muitas e não há “liduínos” que deem para escrever essa enorme beleza literária. O contributo da nossa comunidade por esse mundo fora é tão grande que, nalguns casos, representam uma percentagem acentuada no desenvolvimento dessas localidades. Além disso é, em regra, uma comunidade muito bem vista e respeitada nos meios aonde vive, por vezes fazendo parte dos órgãos de decisão local.

Além de escritor, representa a Turiscon Editora. Compensa, em termos financeiros, escrever e editar livros no arquipélago?

Criei a minha própria editora para não depender de ninguém na publicação dos meus livros. Para além dos meus 50 livros publicados, já editei mais 20 livros de outros autores que recorreram aos meus serviços de edição e assim irá continuar.

Quanto à parte financeira vamos dividir isto em três partes: livros por conta própria; livros por conta dos autores; livros para a diáspora.

Os livros por conta própria, aqueles que decidi editar por minha conta e risco, nalguns casos só ao cabo de vários anos vejo coberta a despesa com a gráfica, e noutros continuam a não ter vendas suficientes para a despesa. É tirar doutros para estes; os livros de outros autores são estes, na maioria dos casos, que assumem os custos de edição e depois tentam vender os livros para se ressarcirem do dinheiro investido, e que tem corrido bem. Raramente a editora assume esses custos; os livros para a nossa diáspora são, na sua maioria, feitos e entregues às pessoas ou entidades envolvidas que assumem a totalidade dos custos e depois os vendem ou oferecem da forma que bem entendem. Muitas vezes são estes livros que ajudam a pagar os feitos por conta própria.

É um pouco complicado e arriscado editar livros nos Açores, um mercado muito pequeno.

Que novos projetos têm em mãos?

Costumo dizer, em jeito de brincadeira, que tenho livros para escrever até depois de morrer.

Tenho muitos e vários projetos para os próximos anos. Nos Açores seguir-se-á, para completar o tema dos Cantadores, o livro dos Improvisadores das outras ilhas (Santa Maria, Graciosa, São Jorge, Pico, Faial, Flores e Corvo), ficando assim todas as ilhas biografadas. Mas há outros, como as “Velhas”.

Este ano deverá ver a luz do dia uma biografia de um jorgense na Terceira e outro livro de uma destacada figura da Fonte do Bastardo, ilha Terceira.

Em 2017 a Turiscon Editora deu início à reedição de grande parte da obra de Augusto Gomes, com a publicação do livro “Filósofos da Rua”, que está a ser um sucesso. Em 2018 está previsto a reedição de “Alma da Nossa Gente”. Em 2019 deverá ser editada “Cozinha Açoriana”, a compilação das várias cozinhas. Em 2020 a reedição do livro de contos (esgotado) “Perdoe pelo amor de Deus”. E finalmente, em 2021, no centenário do seu nascimento, “Biografia de Augusto Gomes”, em jeito de homenagem.

Da diáspora, estou em fase de conclusão do livro “António Nunes – Vacas, Toiros e Chocalhos”, que é uma biografia de um Ganadero da Califórnia que tem a segunda maior coleção de chocalhos do mundo. Outros se seguirão.

 



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